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quarta-feira

Filho Adotivo XIV

XIV
GRATIDÃO

Dois anos se passaram...

Levado novamente por um trabalho entre encarnados, estava na cidade onde Caio residia com a familia. Sabia por amigos comuns que Antônia estava com seus familiares, cumprindo o que prometera, fui visitá-los.

A antiga casa de Ofélia não modificara, cheguei ao jardim, não vi ninguém, tudo estava silencioso, ansioso por rever minha amiga, chamei-a mentalmente. Como não obtive resposta, ia voltando quando ouvi:

— Antônio Carlos!

Antônia veio ao meu encontro sorrindo e, ao seu lado,estava Ofélia, sadia e bonita, vinham da rua.

— Antônio Carlos, que prazerosa visita! - disse Antônia e virando-se para Ofélia, continuou: Este é o amigo de que lhe falo, com sua ajuda, evitamos que Caio e Cidinha se casassem.

— Prazer em conhecê-lo. Como vai? - estendeu Ofélia a mão a mim.

Convidaram-me a entrar,a sala não modificara, só não estava mais ali à cadeira de-rodas.

— Sem ela, a sala fica mais bonita - disse Ofélia sorrindo.

Barulho, os encarnados chegavam. Reconheci-os, era Carla, mais adulta, e muito bonita, e Rosa que me pareceu mais jovem, feliz e trazia um nenê nos braços, passaram pela sala e foram colocar a criancinha no quarto.

— Tudo indica que modificações aconteceram por aqui, disse.

— Antônio Carlos, você deve estar querendo saber o que aconteceu aqui, nestes meses, não é? - disse Antônia que não esperou pela minha resposta e continuou:

— Após você ter partido, Caio viajou, três meses depois voltou, estudou muito. Passou no vestibular, cursa Medicina com muito gosto, está contente, continua sendo uma pessoa encantadora, é nosso orgulho. Nem recorda mais a triste história do seu nascimento, gosta de Cidinha como irmã, não namora ninguém nem pensa em se casar ou namorar; no momento, sua preocupação são seus estudos.

— Sérgio demonstra ser bom administrador e trabalhador, é o braço direito do pai, é justo, leal, é estimado pelos empregados. Consolou Cidinha quando ela e Caio romperam, tomaram-se amigos e acabaram apaixonados, formam um casal de perfeito entrosamento, casarão no ano vindouro para a alegria das familias.

— O nenê? - indaguei curioso.— Paulo, ao ficar viúvo, passou a ser muito cobiçado, principalmente por sua secretária, uma moça que, segundo Carla, era chata e ambiciosa. Os jovens ficaram preocupados, temendo que o pai viesse a casar com uma pessoa inadequada. Carla, inteligente e feminina, descobriu que Rosa amava seu pai, reuniu os irmãos e combinaram unir os dois. Entusiasmados com a idéia, fizeram tudo para que ficassem a sós, que saíssem juntos, pediram à tia para que casasse com o pai, e ao pai para casar-se com Rosa.

Deu certo, acabaram acertando e casaram para alegria dos jovens que amavam Rosa como mãe. O nenê é filho de Paulo e Rosa.

— Chama-se Ana Ofélia - completou Ofélia sorridente -, aqui estamos em visita, trabalho com Antônia, no Centro Espírita que conheceu, onde Caio vai. Antônia e eu somos grandes amigas e sempre que temos permissão aqui estamos. Hoje, Rosa e Carla levaram Ana Ofélia ao médico, está um pouco resfriada e acompanhamo-las. Estou muito bem, sou feliz, venci o egoísmo, meus vícios, nos anos em que passei inválida. Não quero mais me interpor entre Rosa e Paulo, eles se amam e quero vê-los bem e felizes. Sou grata a Rosa, é mãe para meus filhos, ela os ama e eles a ela, estão bem e unidos.

Conversas alegres anunciaram a chegada de Caio, Paulo e Sérgio. Reuniram-se na sala e o assunto era Ana Ofélia.

Foi quando ela chorou e os jovens saíram correndo para o quarto e foi Sérgio quem voltou com ela nos braços.

A pequenina era linda, contava três meses, rosada, com expressão delicada, sorria para todos, encantando-os.

— Par!

— Ímpar!

Eram Caio e Carla a tirar a sorte para ser o próximo a pegá-la.

Rosa e Paulo, de mãos dadas, olhavam-nos sorrindo, estavam felizes.

— E Zélia? - quis saber.

— Zélia voltou a nós, há seis meses, veio tranqüila deixando Rosa bem. Acha-se recuperando ao lado do esposo - esclareceu- me Ofélia e completou: Antônio Carlos, hoje é o dia em que fazem o Evangelho no Lar, convido-o, fique conosco e nos dará imensa alegria, será logo após o jantar.

— Ficarei – disse -, não podendo recusar tão delicado convite.

— Caio - continuou Ofélia orgulhosa -, continua firme nos estudos espíritas e aos poucos foi levando a todos.

Carla, Sérgio e Cidinha freqüentam o grupo de jovens,Paulo e Rosa juntamente com Marcelo e Helena vão a palestras e nos dias de passes. A Doutrina Espírita encanta e esclarece a todos.

Após o jantar, retomaram a sala, Carla estava toda feliz com a irmãzinha no colo, sentaram-se em círculo. Caio pegou o Evangelho Segundo o Espiritismo. Antônia, Ofélia e eu ficamos em pé ao lado deles. Caio abriu o Evangelho no lugar marcado, estava lendo o esclarecedor livro, desde o começo. A página aberta foi à parte final do capítulo XIII.

Leu sobre os órfãos e as perguntas e respostas sobre ingratidão. Acabando o capítulo, fechou o Evangelho e comentou com voz agradável.

— Jesus disse que não veio negar o que Moisés havia dito, mas, para completar, o que Moisés ensinara: “olho por olho, dente por dente”. O Mestre Jesus ensinou: “sirva, ame, se alguém lhe bater na face esquerda, dê também à direita, se alguém exigir que caminhe com ele mil passos, ande mil e mais dois mil”. Não estamos aqui na Terra encarnados só para pedir, rogar favores estamos para fazer,crescer, servir e ser gratos. O homem esquece mais facilmente o Bem que recebe e lembra-se mais do que o aflige. Devemo-nos acostumar a fazer o contrário.

Recordar o Bem que recebemos os favores obtidos e esquecer o Bem que fazemos os favores que prestamos. Para a maioria, Deus é necessariamente bom, amoroso, fraterno, Pai, mas,uma entidade que está à disposição para quando precisar, aí implorar graças a Ele e receber. Não necessitando, Ele afasta-se e fica à espera de quando precisarem. Uma entidade a serviço e se este serviço não vem, revoltam-se.Exigem, querem receber, sem, entretanto lembrar que já recebem muito. E, por este muito que recebemos, de vemos ser gratos, profundamente gratos.

Lembro-me agora de uma das inúmeras curas que Jesus fez a dos dez leprosos. Jesus encontrou-os pelo caminho, atendendo seus rogos, mandou-os que se apresentassem às autoridades, pelo caminho foram limpos, sararam. Assim, tantos continuam, encontram Jesus em templos, nas orações, em Centros Espíritas, rogam socorro, são aliviados e poucos são gratos. Pelo Evangelho sabemos que só um teve gratidão para com seu benfeitor, um só ex-leproso voltou para agradecer, e de Jesus escutou:

“Tua fé te salvou”. Este foi realmente curado, seu Espírito tornou-se são. A gratidão é um dos primeiros passos que damos ao aprender a Amar, gratidão, sentimento tão belo, pouco sentido e praticado. Devemos ser reconhecidos e ter pelos nossos benfeitores um carinho especial.

Devemos ser reconhecidos, mas não exigir gratidão de ninguém, nem a forma educada do “Muito obrigado”, não devemos cobrar dos nossos beneficiados.

A Deus tudo devemos: antes de pedir, devemos agradecer sermos filhos agradecidos, por termos a Ele como Pai Amoroso.

Aproveitemos que estamos aqui reunidos para agradecermos ao Pai pela oportunidade de estarmos encarnados, de termos uma familia, amigos, de estudarmos,de amar e ser amados.

Também, devemos ser gratos a todos, a tudo o que nos cerca, aos nossos pais por ter-nos aceitado como filhos, por nos ter dado tanto carinho e amor. Aos nossos irmãos, por amá-los e tê-los como amigos. Agradecemos à nossa querida Ana Ofélia, Espírito que quis vir a nós, enchendo nosso lar de alegrias. A tia Rosa que nos adotou pelo coração e tanto carinho nos tem dado.

Vamos agradecer também aos desencarnados, os bons Espíritos que nos têm ajudado, aconselhado e orientado.

Nem sempre ficamos sabendo o muito que nos fazem, mas os sentimos sempre dando-nos coragem e força. Nossa gratidão maior deve ser por termos conhecido o Espiritismo, pela compreensão que dele recebemos, pelo entendimento da vida pela qual passamos de necessitados a aprendizes de servos de Jesus.

Agradecemos por estar aqui reunidos, unidos pelo carinho, por orar.

Não esquecemos de nossa mamãe Ofélia, da gratidão que sentimos por ela, esta pessoa maravilhosa que esteve em nosso convívio, ensinando-nos com seu imenso carinho e amor. Onde esteja, mamãe receba nosso abraço amoroso!

A todos os que trabalham, constroem, ajudam, ensinam em Seu Nome Senhor, nosso obrigado!

Vamos, agora, pensar na Natureza, no fogo, na água, terra, matas, no ar, no vento. Vamos nos limpar, com o pensamento vamos jogar fora os fluidos, as energias negativas.

Agora pensamos novamente na Natureza, na Luz, em Jesus. Neste Espírito maravilhoso, no nosso Irmão Maior a nos abençoar.

Caio fez uma pausa, os encarnados ali presentes estavam unidos, comungando as mesmas idéias. Todos os fluidos negativos foram expulsos e energias salutares foram administradas, enchendo a casa, seus corpos e Espíritos de fluidos maravilhosos que a oração, o estudo do Evangelho nos trazem, beneficiando tanto.

Oraram juntos em voz alta o Pai-Nosso. O culto do Evangelho no lar terminara. Conversaram alegres.

Lágrimas escorriam nos rostos das minhas emocionadas amigas. Não ousei falar, despedi-me com um simples aceno de mão e parti com a imagem na mente de um lar cristão, feliz e de Antônia e Ofélia a me acenarem, sorrindo.

Envolvido pela beleza do firmamento, cheguei à Colônia:

— “Graças, graças lhe rendo ó Criador do Universo, por nos criar pequenos e por nos ter dado a Terra como lar e escola abençoada.”.


Médium: Vera Lúcia M. Carvalho
Espírito: Antônio Carlos

Deus proteja a todos...

abçs,

FIM

quinta-feira

Filho Adotivo XII

XII
O PASSADO
Voltei para a Colônia, retornei ao meu trabalho, a curiosidade de contador de histórias veio forte e procurei saber do passado das figuras principais da trama que se desenrolava. Procurando o Departamento encarregado, vim, a saber, o que ocorrera na última existência deles.

Dias depois, fui ver Antônia.

— Aqui está tudo bem,Caio prepara-se para viajar, Cidinha está mais conformada e Ofélia sente muitas dores e cansaço, não está longe sua libertação, devendo ser antes de Caio partir.

— Antônia, procurei saber do passado de vocês, compreendi o porquê do sofrimento de Ofélia, numa cadeira de rodas, inválida há tanto tempo.

— Posso saber?

— Se quiser escutar... Com a afirmativa de cabeça de minha amiga, narrei: Não darei os nomes que tiveram e sim os atuais, para facilitar. Paulo fora inteligente e trabalhador, de família de posse média, casou-se jovem com Rosa, e, após o casamento, foi administrar um grande armazém do sogro. Esperto para negociar, o comércio prosperou em suas mãos. Viviam Paulo e Rosa tranqüilos e tiveram dois filhos: Sérgio e Carla.

Foi então que Paulo conheceu Ofélia,moça pobre que trabalhava de doméstica.Há muitas encarnações foram Paulo, Rosa e Ofélia um triângulo amoroso, as duas disputaram o amor dele.

Ofélia tudo fez para conquistá-lo e não foi difícil conseguir, tornaram-se amantes. A cidade em que moravam era pequena e logo Rosa e seu pai ficaram sabendo. Rosa suportou a humilhação de ser traída, tudo fez para separar o esposo da amante, pedia sempre de forma delicada e Paulo prometia deixar a amante e não o fez. Resignada, Rosa passou a cuidar somente dos filhos que adorava.
Do romance de Paulo e Ofélia, nasceu Caio registrado só no nome de Ofélia. Paulo então alugou uma casa razoável para Ofélia e o menino, e passou a sustentá-los. Anos viveram assim, o sogro de Paulo adoeceu gravemente, temendo deixar a fortuna nas mãos do genro e que este desse parte do seu dinheiro à amante e ao filho bastardo, chamou o genro e disse-lhe:

“Paulo, sua aventura faz infeliz minha amada filha, gosto de você, fez prosperar minha fortuna nestes anos, é trabalhador e honesto. Não ficarei vivo muito tempo e vou deixar tudo o que tenho para meus dois netos, Sérgio e Carla. Temo que deixando para Rosa, você, casado com ela em comunhão de bens, venha a dar o que é meu para sua amante que odeio e seu bastardo filho. 

Fiz meu testamento e tenho que nomear um tutor, poderá ser você, mas com a condição que você também passe o que é seu para Sérgio e Carla, se não o fizer nomearei tutor dos meus netos, José, meu empregado, e desde já passará ele a cuidar de tudo, inclusive da direção do armazém.”

“O senhor não pode fazer isso?!”, espantou Paulo.

“Posso e farei”, continuou o sogro. “Se fizer já o que quero, continuará a cuidar de tudo como sempre.Por que hesita, Paulo? Sérgio e Carla devem herdar tudo.Rosa já concordou. Dou-lhe três dias para responder-me.” ·.

Paulo revoltou-se, ficou nervoso, amava o que fazia e se orgulhava em ser o chefe. Entretanto, conhecia o sogro, sabia que não voltaria atrás; ou fazia o que ele queria, ou José assumiria tudo. O sogro de Paulo nesta existência foi Sr. Caio seu pai, que odiava a amante do genro, não gostava da esposa do filho, demorou para ter-lhe amizade.

Paulo fez o que o sogro queria, escondeu este fato da amante, entretanto tornou-se inquieto e nervoso. Rosa,sabendo causa, ignorou-o. Sr. Caio fez tudo bem feito, elaborado por um bom advogado, foi tudo registrado em Cartório. Assim, Paulo tornou-se pobre, era só tutor dos filhos. Logo após, o pai de Rosa faleceu e a notícia do testamento espalhou-se pela cidade.


Ofélia não gostou, pensava e queria que Caio herdasse, também, era filho de Paulo e tinha direitos. Sonhava com o filho rico para que ele pudesse estudar. Caio desde pequeno queria ser médico, brincava e só falava nisso. E, para Ofélia, ele tinha jeito de médico e sonhava em formá-lo.

Caio era bom menino, não entendia o que ocorria com os pais, nas visitas paternas, a mãe fazia-o tomar-lhe a bênção e sair em seguida. Temia o pai e sentia vergonha em sua frente. Tentou saber do porquê de ele não morar com eles, indagou da mãe, esta ficara nervosa e lhe batera, preferiu então não indagar mais. Estava proibido de ir para os lados da casa do pai e de conversar com os outros irmãos. 

Isso o entristecia, sempre quis ter irmãos e não podia nem conversar com eles nem cumprimentar o pai fora de sua casa. Conhecia seus irmãos, via-os de longe com a mãe deles, achava-os bonitos, foi só na adolescência que entendeu tudo.
 
Inconformada com o procedimento de Paulo, Ofélia exigiu do amante que doasse alguma propriedade a Caio, com a negativa deste, começaram as brigas entre os dois.


Paulo começou a se cansar de Ofélia, de seus queixumes, começou a se esquivar, rareando as visitas e dedicando-se mais aos filhos e a doce esposa.

Ofélia não se conformou. Paulo ainda os sustentava, masela sentia que o perdera. Havia ela feito muitos abortos, tivera Caio na esperança de prender o amante e agora queria, através do filho, garantir seu futuro.Na tentativa de tê-lo como antes, mandou-lhe um bilhete marcando um encontro. Paulo compareceu, mas estava frio e indiferente Ofélia tornou-se agressiva e brigaram violentamente. Paulo aos gritos disse que estava tudo terminado e se ela o importunasse novamente não daria mais dinheiro nem para o filho nem para ela.

“É seu filho e tem que sustentá-lo”, disse indignada Ofélia.
 
“Ora, nem sei se o garoto é meu, faço muito em sustentá-lo, não vou deixar nada a ele, nunca vou querer bastardos.
 
Filhos são só os da minha esposa que é honesta. Bastardo não merece nada nem a amante.”

Paulo saiu e Ofélia, em lágrimas, jurou vingar-se.

Esperou uns dias para ver se o amante mudava de idéia, mandou-lhe vários bilhetes, que foram devolvidos. Paulo também negou-lhe dinheiro. Ofélia, com ódio planejou sua vingança. Ela sabia de todos os costumes da casa do amante e um destes pareceu-lhe importante: eles iam à missa todos
os domingos pela manhã.

Paulo morava com a esposa e os filhos na casa que pertencera ao sogro, uma propriedade grande e bonita, uma pequena chácara, não muito afastada da cidade, que na verdade, era separada desta por um morro. 

Assim, para irem à cidade tinham de subir o morro por uma estrada bem cuidada e bonita, talhada na encosta, de um lado barranco, do outro encosta pedregosa, buracos perigosos.

Ofélia conhecia bem o local, muitas vezes fora espionar a casa, Rosa e os filhos, corroída de ciúme e inveja deles.

No domingo cedo foi para lá e escondeu-se perto da cocheira. Viu o preto velho que cuidava dos cavalos providenciar a charrete que os levaria à igreja. Ao vê-lo afastar-se, talvez para avisar que a charrete estava pronta, Ofélia correu até a cachoeira, pegando uma faca que trazia escondida na cintura e rapidamente examinou a correia que ligava a charrete aos cavalos. Viu que estava seca e gasta, sorriu achando-se com sorte.

Cortou parte da correia, deixando-a presa só por um pedaço, fugiu apressada, voltando à sua casa cautelosamente, evitando ser vista.

Naquele domingo, Sérgio acordara febril e Rosa achou melhor que o filho ficasse acamado e não quis ir à igreja, preferindo fazer-lhe companhia. Foram à missa, Paulo e Carla a caçula, que estava com oito anos, era uma criança linda e inteligente.

Paulo gostava de andar com os cavalos a galope, todos sabiam disso. Rosa sempre temia suas disparadas e ele, quando estava com ela, ia mais devagar. Naquela manhã, só com a filha, chicoteou os cavalos, dois garbosos corcéis, que dispararam e puseram-se a subir o morro. A filha ria, entusiasmada fechando os olhos, sentindo o vento forte que desarrumava seus cabelos longos.

A correia acabou se rompendo,desligando a charrete dos cavalos que continuaram disparados e assustados. A charrete voltou alguns metros, Paulo pensou em pular, porém seu primeiro instinto foi salvar a filha, mas, não teve tempo, rolaram pela ribanceira.


Paulo acordou horas depois já no seu leito, foi socorrido por trabalhadores que também iam à cidade. Reconheceu o médico ao seu lado. Sentiu fortes dores pelo corpo todo, recordou o acidente e sentiu-se aliviado por estar vivo.

— Carla, Carla, onde está você filhinha?!


Lembrou-se aflito da filha, o médico bondosamente contou-lhe que a menina batera a cabeça numa pedra e falecera.

Paulo chorou muito, sentiu-se culpado, Rosa também sofreu muito, mas consolou o esposo. Passados uns dias, Paulo percebeu que não movia as pernas e a triste notícia o deixou desalentado, fraturara a coluna e não mais andaria.

Pensaram que o acidente poderia ter sido proposital, mas não tiveram como provar já que a correia estava velha.

Todos sabiam que Paulo corria e ninguém vira estranhos por ali, foi dado como acidente. Tanto Paulo como Rosa não descartaram que poderia ter sido tramado por Ofélia.

O casal passou a viver isolado e triste, Paulo tratava dos negócios em casa e Rosa passou a ir ao armazém e logo Sérgio passou a ajudá-los e a cuidar de tudo. Com a morte da irmã, passou a ser o único herdeiro. 

Sérgio viveu muito tempo encarnado, foi honesto, simples, bom administrador e empregador. Agora voltou com missão maior, administrar uma fortuna imensa para o bem comum de muitas pessoas, que, através de sua fortuna, terão salários dignos de seus sustentos.


Paulo viveu oito anos no leito e desencarnou, amargurado. Rosa cuidou dele bondosamente, mas também tornou-se triste e quieta, só se alegrando com o filho.


Com a desconfiança de que poderia ter sido Ofélia a causadora do acidente, Paulo não quis mais saber da examante e nunca mais os ajudou, não viu mais o filho e não se preocupou com ele.

Para sobreviver, Ofélia voltou ao trabalho de doméstica, tornou-se revoltada, descontava suas mágoas no filho. Caio era boa criança, obediente, trabalhador e ajudava a mãe em tudo que podia.

Ofélia dizia sempre ao filho:

“Como me arrependo de não ter abortado você também.

Se não fosse você, não teria que trabalhar tanto assim.”
 
Era o que realmente sentia em relação ao filho, não ligou para o infortúnio do ex-amante, mas a morte da menina a abalara, começou a sentir remorsos e a sonhar sempre com ela. Tinha horror a estes sonhos, se acordava durante a noite, fazia o filho ficar acordado ao seu lado. Já com dez anos, Caio foi trabalhar numa farmácia começou a ajudar nas despesas de casa, logo após a mãe parou de trabalhar e Caio passou a sustentá-la. 

Viveram miseravelmente e quando Caio completou dezoito anos Ofélia desencarnou.

Paulo e Ofélia encontraram-se no Plano Espiritual, sofreram com rancores. Rosa, mais resignada, e Carla os ajudaram a reconciliar, arrependeram-se, reconheceram seus erros, pediram para reencarnar. Ofélia e Rosa seriam irmãs carnais para aprender a se amar, prometeram que iriam se respeitar e viver em paz. Ofélia, porém, culpava-se muito por ter provocado o desencarne de Carla e a invalidez de Paulo. 

Planejou ficar inválida para um resgate, para ser livre do remorso que tanto a fazia sofrer, escolheu passar pela mesma dor. E foi para proteger Carla, evitando que fosse atropelada, que veio nesta vida a tornar-se inválida.

Como vê Antônia, reencontraram-se e Caio veio até eles como bastardo Sérgio e Carla tiveram como mãe a examante do pai que odiaram e, graças a Deus, aprenderam a amar.

— É por isso - disse Antônia -, que Carla e Sérgio gostam tanto de Rosa e, a cada dia que passa, ligam-se mais a ela.

— Sim, reencontraram a antiga mãe. Ofélia a traiu no passado, nesta duvidou da irmã e sofreu a dúvida por anos, pensou que a irmã a traíra.

— Rosa é honesta e boa, nunca pensou em trair ninguém.

— Ofélia foi traída, Paulo teve outras amantes.

— Sim, fui uma delas. Diga-me, Antônio Carlos, o que aconteceu a Caio?
 
— Caio gostava de seu trabalho, tornou-se boticário na farmácia em que trabalhava. Após a morte de sua mãe, sua vida melhorou e passou a cuidar melhor de si mesmo e dedicou-se ao trabalho. Caio há muito vem ligado à Medicina, porém, nunca exerceu como deveria um bom cristão, com humildade e bondade. 

Orgulhoso por ser médico, julgava-se melhor que os outros. Nessa existência anterior, como lição a seu Espírito, teve vontade de estudar e não pôde, aprendeu a dar valor aos estudos. Mas quem sabe recorda. Caio entendia de doenças e remédios e tornou-se um boticário, um farmacêutico respeitável, muito procurado que atendia a todos com carinho.

— Quase que Caio nesta existência não cursa Medicina, fazia outro curso - comentou Antônia.

— Antônia, quem quer ser útil e crescer em qualquer profissão encontra oportunidades. Caio, embora tenha estudado Medicina no espaço antes de reencarnar, não assumiu compromisso para exercê-la novamente encarnado.
 
Muitos fatores, acontecimentos, influem no estágio do corpo, podendo mudar muito o planos. Aprendemos muito em cada função, cada profissão exercida. Espírito livre tem gostos e preferências. Caio que nunca deixou de amar a Medicina, com a mudança que houve em sua vida, com a descoberta de sua adoção, ficou desejoso em exercê-la com maturidade e bondade.

— E você, meu amigo, planeja ser médico novamente, quando encarnar? - perguntou Antônia sorrindo com sua indiscrição.

— Tenho ainda muito tempo de trabalho desencarnado, quando encarnar não sei o que poderá falar mais alto, meu amor pela Música, pela Literatura ou pela Medicina. Espero somente servir a Deus em qualquer função, minha indiscreta amiga.

— E Cidinha, Antônio Carlos? Minha filha ficou órfã, também foi adotada.

— Cidinha é ligada aos pais adotivos que por abusar da paternidade não puderam gerar seus próprios filhos. Veio e é ente querido por vias ilegítimas, mas legítima pelo amor.

— Não estou ligada ao grupo? Caio e Cidinha são estranhos para mim?

— Estranho ninguém é um do outro, somos irmãos e a Humanidade toda é nossa família. Por afinidades, carinho formamos grupos e os mais esclarecidos ajudam os retardatários.

— Devo ser uma das retardatárias, destas pessoas que só pensam naqueles que a amam para receber benefícios - disse Antônia, melancólica.
 
— Antônia, você tem sido egoísta, não ligando verdadeiramente para ninguém. Agora compreende, ficou preocupada com os filhos e ama-os com carinho, começa a metamorfose de lagarta a borboleta.


— Obrigada. Grata estou meu amigo, disposta a fazer tudo para melhorar. Que fui no passado?

— Você vestiu na vida anterior corpo do sexo masculino.

Seus pais foram os mesmos que teve nesta, foram ricos, fizeram-lhe todos os gostos e caprichos. Orgulhoso e libertino abusou de muitas mulheres e as abandonou. Seus pais, cientes do erro que cometeram na sua educação, retornaram pobres e receberam-na por filha, deram-lhe amor e tentaram dar-lhe boa formação. 

Por eles, foi de grande proveito à lição da pobreza, sofreram, resgataram só que não conseguiram fazer tudo o que pretendiam com você, conduzi-la ao bom caminho. Você acabou ligando-se a Paulo, depois a Jerônimo que a abandonaram como você fez a outras no passado. Nem afetos maternais despertaram em você amor na época, acabou a dor, sábia orientadora, ensinando-a a lição, despertando-a para os valores reais da vida.


— Hoje, amo tanto meus pais, meus filhos e os amigos que servem de pais aos rebentos que abandonei.

— Quando aprendemos a amar, tornamo-nos melhores, mais compreensivos e menos egoístas e, se purificarmos e ampliarmos este Amor, nossa família será toda a Humanidade
 
Médium: Vera Lúcia M. Carvalho
Espírito: Antônio Carlos

Deus proteja a todos...

abçs,

quarta-feira

Filho Adotivo XI


XI 
O PERDÃO

Já ia sair, quando Rosa entrou na sala, esperei, acompanhamos o diálogo das irmãs.

— Oi, Ofélia, posso lhe fazer companhia?

— Rosa, senta aqui perto de mim. Estava mesmo querendo falar com você a sós, desde que chegaram, aguardava esta oportunidade. Rosa, você continua sendomeiga e boa, não mudou nada. Sinto remorsos pela forma com que a tratei. No passado, na mocidade, fiz muitas coisas sem pensar. Quero pedir-lhe perdão. 

Não, por favor, não fale nada, escuta-me. Você namorava com Paulo, sabia que gostava dele, não tinha que me intrometer entre vocês.

Mas fiz, sem me importar com você, deve ter sofrido, fiz você sofrer, perdoa-me.

— Ofélia, isso foi há tanto tempo! Não penso assim, nada me fez de mal. Somente eu gostei dele na época, não ele de mim. Acho, tenho a certeza de que foram feitos um para o outro. A duas metades da laranja...

Riram.

— Não guardou mágoas mesmo?

— Não, Ofélia não guardei nem as tive.

— Obrigado - suspirou Ofélia contente -, que bem me faz ouvir isso!

Passaram a conversar sobre outros assuntos.

— Acho Antônio Carlos - disse Antônia -, que só faltava esse gesto para Ofélia desligar de qualquer vínculo de que poderia ter culpa. Pediu perdão à irmã, humilhou-se, reconheceu seu erro e de coração reconciliaram-se.

— Ofélia prepara-se para o desencarne, todos os encarnados deveriam fazer isso e todos os dias, para não temer a morte do corpo. Quem sabe o dia em que desencarnará? Ofélia com consciência tranqüila está livre, não possui vícios nem desejos. Porque, minha amiga, devemos destruir nossos vícios, libertarmos de todos os desejos encarnados para que eles não permaneçam com o corpo perispiritual após ter se separado do corpo físico.

Pediu perdão, o perdão faz um bem enorme a quem pede com arrependimento sincero, pedir, independente ou não de sermos perdoados pelo ofendido, recebemos a paz e a tranqüilidade. Agora Ofélia está em paz.

— Rosa já perdoou a irmã há tempo. Como ela é boa, não guardou rancor, embora tenha sofrido muito.

— Se todos, Antônia, agissem assim, o mundo seria bem melhor. Jesus recomendou-nos tantas vezes que perdoássemos, mesmo sem que nos pedissem perdão.

Ainda mais quando pedido. Não perdoar é ligar ao ofensor com rancor, ódio e talvez no futuro obsedar. 

Quem não perdoa, sofre, e sentir-se não perdoado, amaldiçoado, sofresse mais. Não guardar rancor é estar propício a ligar ao Alto, com as forças do Bem. Como é bom saber-se perdoado e perdoar a todos com sinceridade, esquecendo-se das ofensas recebidas.

Após o jantar, reunidos na sala, Zélia com simplicidade pegou o Evangelho, olhou para Ofélia e disse alto:

— Ofélia, acostumamos, Rosa, meu querido esposo e eu, uma vez por semana ler o Evangelho e orarmos juntos.

Família que ora unida, permanece unida. Se permitir, se quiserem, gostaria de ler um pedacinho.

— Que feliz idéia, tia, maravilhosa! - exclamou Caio entusiasmado.

— Certamente, Zélia, gostaria de ouvi-la - disse Ofélia.

Silenciaram, Paulo meio a contragosto, largou o jornal que lia. Zélia abriu o Evangelho, onde já estava marcado, era o Evangelho de Mateus, a parte de que mais gostava O Sermão da Montanha. Sérgio e Carla que inicialmente, não gostaram da idéia, aos poucos foram se envolvendo com a leitura. Zélia lia com amor, sua voz harmoniosa se fez ouvir por uns quinze minutos. Não fez comentários. Fechou o livro e convidou a todos a orar um Pai-Nosso.

Aproveitamos para doar energias benéficas e todos sentiram-se bem e gostaram.

— Tia, podemos reunir sempre para uma leitura! É tão bonito! - disse Carla com sinceridade.

— É mesmo, também gostei - falou Paulo.

— Se quiserem, marcaremos um dia da semana, logo após o jantar.

Todos concordaram, Zélia era católica, tinha o conceito de que não são os cultos externos que levam a Deus, mas, os ensinos sábios de Jesus e na vivência dos Evangelhos estavam às setas do Verdadeiro Caminho da Vida Eterna. Logo após, Caio foi para seu quarto, não pegou nada para ler como estava fazendo antes, pôs-se a pensar: 

“Quero cursar Medicina, sinto que devo, é do que gosto. Se já estive encarnado muitas vezes, acho que tenho um compromisso com esta profissão. Hoje a Medicina está tão profissionalizada, a maioria esquece a parte humana dos que sofrem, só pensam na parte material, tornando-a uma das profissões mais rendosas neste país de tantas doenças.

Comigo não será assim, quero exercê-la usando meus conhecimentos igualmente para todos. Tenho que falar com papai, mas como fazê-lo? Mamãe, ela me ajudará. Será que meu velho ficará aborrecido? Será que lhe darei desgosto?

Bem, tenho que tentar e fazer com que me entendam.”.

Pensou bastante e decidiu: faria Medicina!

No outro dia, foi ao Centro Espírita tomar passe, conforme informara-lhe Luísa. Estava lotado de pessoas de várias classes sociais. Um senhor fez a oração, pediu a todos para pensar em Jesus, não na imagem do crucificado, mas do homem-Mestre, do Jesus amigo que ensinava, curava e abençoava. Após, fez uma pequena palestra explicando o que Jesus disse ao falar a Nicodemus sobre a necessidade de nascer de novo para ganhar o Reino de Deus. 

Da necessidade que todos nós temos de reencarnar para aprender e crescer espiritualmente.
Caio prestou muita atenção, sentiu que não voltara a encarnar à toa e que seu nascimento, o abandono de sua mãe, tinham um significado que esquecera com a encarnação.

— É necessário - continuou o orador -, encarnarmos tantas vezes que for necessário para progredirmos, mas é necessário também aproveitarmos à oportunidade e mudarmos a forma de viver seguindo os exemplos evangélicos, praticando o Bem, amando a todos como a nós mesmos. Não deixando para o futuro, para outras encarnações esta mudança, é chegada a hora de fazermos,construir,plantar o Bem para uma boa colheita no futuro.

Mais importante para nós que conhecemos a Lei da Reencarnação, é construir um futuro melhor, é aproveitarmos os conhecimentos espíritas para libertarmos no presente, fazer, progredir nesta encarnação agora.

“Como a Lei das Reencarnações é divina, pensou Caio, que justiça! Entendê-la é reconhecer a Bondade e o Amor do Criador. Devo ter vindo a Terra encarnado para uma finalidade, acho que é na Medicina que encontrarei oportunidades de construir talvez, o que destruí no passado,
de acertar onde errei.”

Foi formada uma fila e Caio feliz caminhou para ela. Um grupo, formado por dez pessoas, estava dando passes. A sala para tal evento estava impregnada de bons fluidos, a equipe espiritual que ali auxiliava era grande e tudo fazia para ajudar com carinho os encarnados.

Caio sentou-se na frente de uma senhora de feições bondosas para receber seu passe.Antônia aproximou-se, falou à passista, que era médium, que recebeu a mensagem e transmitiu a Caio:

— Sua mãe manda-lhe abraços. Ela ama-o muito, reconhece seu erro, pelo qual muito sofreu e roga-lhe que a perdoe.

Caio olhou assustado para a passista. Mãe para ele era Ofélia, recordou então da outra, da que lhe dera a oportunidade da encarnação, ela tinha desencarnado e deveria estar ali no momento. Ficou emocionado, não a amava, nem mesmo pensava nela. Ela sofrera e rogava-lhe perdão, não tinha nada para lhe perdoar, não se sentia prejudicado. A médium e Antônia aguardavam resposta e Caio foi espontâneo em responder:

— É Deus quem nos perdoa. Não tenho nada para perdoar, mas se ela pede-me perdão, perdôo sim, e que tenha paz.

Rápido veio-lhe na mente o que o preocupava no momento e indagou:

— Ela poderia responder-me, o que devo fazer?

Continuar meus estudos ou fazer outros?

Antônia, emocionada, olhou-me pedindo ajuda, respondi em seu lugar, no intercâmbio maravilhoso, a médium transmitiu meu pensamento:

— Ser útil é a maravilhosa oportunidade de reparar nossos erros e acertarmos o caminho que nos leva à verdade e felicidade. São muitas as formas de servir, em todas as profissões temos a possibilidade de ser útil. 

Porém, é com a Medicina que se identifica e será feliz em exercê-la.

Caio levantou-se, sentiu-se engasgado pela emoção, a médium falara de sua mãe carnal desencarnada e da Medicina não mencionada. Sentiu-se feliz em receber estas provas, bebeu a água fluida e saiu. Voltou em paz para casa.

Antônia voltou-se para mim com lágrimas nos olhos:

— Agora entendo o que Ofélia sentiu ao ser perdoada pela irmã. Que Deus proteja meu Caio, o filho queabandonei.

Caio chegou em casa cedo e só encontrou a mãe, todos tinham saído e as tias foram com Carla ao cinema. Caio aproveitou e sentou-se ao lado da mãe numa almofada, colocando a cabeça em seu colo. Como de costume, Ofélia, carinhosa, passou as mãos pelos cabelos do filho.

— Mamãe, sofro em vê-la nesta cadeira.

— Não deve preocupar-se comigo, meu filho, acostumei e não sofro.

— Penso no porquê, a senhora tão boa inválida assim.

— Já pensei muito nisso, não por achar-me boa, mas se poderia ter algum motivo. Não tive resposta às minhas indagações, sinto que é justo merecido. Não sei se você me entende, Caio, creio em Deus, Pai Justo e na Sua Sabedoria; muitos acontecimentos não entendemos, mas sinto-os verdadeiros. Senti a necessidade de aceitar e fiz. 

É como se tivesse escolhido passar por isso, é como sofrer por livre escolha, não sei explicar-lhe, sinto-me em paz aceitando.

Caio não respondeu, pensou que no exemplo de sua mãe estava a confirmação da reencarnação. Sua mãe devia estar quitando por vontade própria seus erros, as dívidas não cobradas por ninguém a não ser por ela mesma, erros de outras existências.

— Caio meu filho, quero pedir-lhe uma coisa.

— Tudo o que quiser mamãe.

— Peço a você, porque é mais velho, bom e compreensivo. Estive afastada de suas tias, erro meu, me arrependo, minhas irmãs não têm condições financeiras para viver. Gostaria de dar lhes tudo até o fim de suas vidas. Não sei quando tempo vou ficar aqui, acho mesmo, querido, que não me demorarei entre vocês.

— Mamãe!

— Não me interrompa, filho, quem sabe do futuro? Não se preocupe, talvez enterre a todos. Para ficar tranqüila quero que me prometa se quiser é claro, cuidar de suas tias, se partir primeiro.

Ofélia falou com ternura, Caio olhou-a com muito amor, a mãe confiava a ele as irmãs, sentiu seu carinho, sentiu-se ligado pelos laços do afeto. Não era necessário ser parente da carne para estar ligado pelo amor maternal. Levantou-se, abraçou-a e beijou-a.

— Prometo, prometo e prometo. Se é para deixá-la tranqüila, confie em mim, cuidarei delas, tenho a certeza de que não necessitarei de cumprir a promessa, mas, se tiver, farei com todo carinho.

— Obrigado, fico mais tranqüila com sua promessa.

— Mamãe ainda vou curá-la, como gostaria de vê-la andando!

— Com idéias de Medicina outra vez na cabeça? Faz tanto tempo que não falava neste assunto, pensei que tinha desistido.

— Estou pensando seriamente em cursá-la, foi sempre meu sonho, foi o que sempre quis. Deixei de lado esta vontade pensando em ficar no lugar de papai, mas não é isto o que quero. Vou deixar meu Curso de  Administração e estudar para o vestibular de Medicina, só que temo papai.

— Paulo terá um grande desgosto. Caio médico pareceme uma profissão tão sacrificada, cuidar de doentes, ver sofrimentos, fazer plantões, conviverá com dor, morte, trabalhar com seu pai será mais fácil!

— Quando gostamos, quando fazemos com amor, tudo é fácil, gosto das indústrias, sei o que elas representam para papai, mas há Sérgio que gosta e idealiza cuidar de tudo.

Não quero dar desgosto a vocês, são tudo para mim e soulhes grato. Ás vezes penso no que seria de mim se não fossem vocês.

— Que bobagem, filho! - exclamou Ofélia olhando o filho, temeu por instantes que ele soubesse da verdade, não queria que soubesse, não queria que sofresse. Ele falava tão estranho, vendo-o tranqüilo, acalmou-se. 

Caio percebendo o receio da mãe, sorriu e acariciou-a. Ofélia continuou:

— Seu pai e eu fazemos o que nos é devido, amamos vocês três, quanto a mim, filho, quero-o feliz, não me importa se é como mestre, médico ou administrador. Seu pai está estranho, você terminou seu namoro com Cidinha e ele nem se importou. Paulo o quer trabalhando com ele, mas o quer feliz na profissão que escolher, falarei com ele, farei ele entender.

— Obrigado, mamãe, ter a senhora ao meu lado, é tudo o que quero!

Naquela noite mesmo, Ofélia falou com Paulo, que a escutou, triste:

— Ofélia, sonhava com Caio no meu lugar, o menino é bom, honesto e inteligente, todos gostam dele.

— Paulo acabamos por forçar Caio a estudar o que não queria, ele sempre quis ser médico.

— Logo médico, trabalha tanto, faz plantões de noite, de dia, não tem sossego e ainda ganhará bem menos.

— Ele gosta e será bom profissional.

— Como negar algo a ele? Sei que deve ter pensado muito para decidir. Não vou impedir. Não devo interferir no que ele quer.

— Não fique triste, Paulo.

— Ofélia, não posso me alegrar, é um grande sonho meu que vai embora. É melhor conversar com ele, diga-lhe para ir à tarde ao escritório.

No outro dia, Caio foi ver o pai sentia-se encabulado, sabia que o estava magoando. Paulo olhou-o, Caio falou baixo:

— Pai, desculpa-me, pensei muito mesmo, gosto daqui, mas desejo, quero, sinto que devo ser médico, por favor, entenda-me!

— Médico não é carreira fácil, lidará com dores, doenças, só com tristeza, aqui é bem melhor. Caio não respondeu, olhou-o somente. Paulo continuou. Está bem, não vou mentir dizendo que estou alegre, faça como quiser.

— Verdade? Posso também viajar?

— Prometi - disse Paulo sorrindo, vendo a alegria do filho.

— Vou trancar a matrícula e vou aos Estados Unidos, volto para estudar para o vestibular, pagará meus estudos?

— Oh, filho! Por que não pagaria? Não me fale assim, o que é meu é seu, é nosso filho, se não fosse...

— Desculpa-me, pai, minha decisão nada tem a ver com tudo aquilo, já esqueci, não devemos lembrar mais, nada mudou, eu os amo muito.

Abraçou o pai, Paulo beijou-o na testa:

— Vá, vá, Dr. Caio, cuida de sua vida e faça o que gosta.

O mundo ganhará um médico estudioso e responsável, cumpridor de seus deveres. Acabo de entender que não é filho que realiza os sonhos dos pais.

Caio saiu feliz, foi trancar sua matrícula e tratar do passa-porte, viajaria logo.

 
Médium: Vera Lúcia M. Carvalho
Espírito: Antônio Carlos

Deus proteja a todos...

abçs,
 

domingo

Filho Adotivo X


CAIO NO ESPIRITISMO

Os familiares de Caio estavam na sala conversando, Sérgio, ao ver o irmão, foi dizendo:

— Caio, por que terminou o namoro com Cidinha? Fez um papelão! Em vez de dar explicações a ela, disse-lhe que gosta de outra. Meu irmão acho que enlouqueceu, se papai não o matar, mata o Sr. Marcelo. 

Cidinha contou-me tudo, está humilhada e com razão. Deve-nos explicações, pode começar. Onde já se viu largar uma moça como Cidinha assim?

— Sérgio, prefiro não falar deste assunto - respondeu Caio.

— Ah! É? Sabe que errou, é melhor consertar tudo pedindo perdão a Cidinha.

— Caio - indagou curiosa Carla -, é verdade mesmo?

Brigou com Cidinha? Não está apaixonado por ela?

— Pensei que estava Carla, confundi, descobri que não a quero mais. Cidinha é maravilhosa, mas no coração não se manda. Já conversei sobre isso com papai e mamãe.

— Verdade? - indagou Sérgio, olhando para o pai.

— Deixem Caio em paz - defendeu-o Paulo -, é verdade, falou conosco e entendemos, gostamos de Cidinha, porém achamos que o principal é Caio amá-la, se descobriu que não a ama, agiu certo.

— Quê?! Enlouqueceram todos? - disse Sérgio -, pensei que iam brigar com ele, castigá-lo.

— Sérgio meu filho, não quero obrigar meus filhos a nada, ainda mais a casar, também gosto de Paula e não é por isso que obrigarei você a casar com ela.

Riram todos.

— Graças a Deus, feia e metida como é; porém, Cidinha é diferente.

— Mudemos de assunto - disse Paulo, Caio é adulto e sabe o que quer, não devemos mais tocar neste assunto, acabou e pronto!

— O Sr. Marcelo e D. Helena estarão pensando assim? - indagou Sérgio.

— São boas pessoas e não irão acabar com nossa amizade por brigas de vocês. Marcelo telefonou hoje de manhã e não tocou no assunto.

Uma amiga de Carla chegou e todos foram para a varanda, menos Ofélia que fez um sinal para que Caio ficasse.

— Caio, estou preocupado com você, está namorando outra? Ama outra? Fez um papel feio com Cidinha...

— Mamãe - disse o moço beijando-lhe o rosto -, não se preocupe, não namoro ninguém nem amo. Na sexta-feira, saí com amigos e, por acaso, sentei perto de Luísa, colega de classe, conversamos somente, viram-nos e contaram a Cidinha que tirou suas conclusões, não me deu nem tempo para desmentir. Foi melhor, com raiva de mim, Cidinha me esquecerá mais fácil.

— Parece-me aborrecido, tem mesmo certeza de que não ama Cidinha?

— Tenho mamãe, pensei bem, só me aborreci com os comentários, mas estou aliviado por estar tudo terminado.

Todos voltaram à sala e conversaram animados, esperando o almoço.

Zélia e Rosa esforçavam-se para se acostumar com o movimento da casa. Felizes com a boa acolhida procuravam ser agradáveis sem, contudo, conversar muito.

Aquela semana foi diferente e movimentada, foram ao médico, dentista e acompanharam Carla pelas lojas, compraram roupas que hesitaram em aceitar, porém Paulo insistira, dera dinheiro à filha que adorava gastá-lo e, num piscar de olhos, viram-se elegantes e com o guarda-roupa sortido e caro.

Sentiam que os sobrinhos gostavam delas e gostaram tanto deles que se sentiam as tias mais “corujas” do mundo.

Auscultei-as. Zélia sentia-se mais tranqüila, apesar de o diagnóstico do médico consultado afirmar o mesmo que o outro que a tratava: seu coração não estava bem, falhando muito. Receitara novos remédios, recomendara tranqüilidade, repouso e boa alimentação. Na casa da irmã estava tendo tudo isso, importava-se pouco com a saúde, ansiava deixar o mundo encarnado e encontrar o esposo ao qual estava ligada por afeto sincero e de quem tinha muitas saudades. Estava arrependida por não ter escrito antes à irmã, sentia que Ofélia mudara e sofrera muito. 

Não conseguia entendê-la, tantos anos de indiferença e agora tratando-as como duas rainhas. O importante era Rosa, amava-a como filha, cuidara dela quando doente, depois foi sua vez de ajudá-la na doença do esposo e, nos últimos tempos, cuidando dela. Sabia que não viveria muito, sua preocupação era deixar Rosa sozinha. Sem sua aposentadoria, como iria Rosa viver numa cidade grande e sozinha? 

Pediria ajuda a Ofélia pela irmã, sabia que os sobrinhos e a irmã ao conviver com Rosa a amariam e poderia partir tranqüila, deixando-a amparada. Agora, ali, não se arrependera, vendo Rosa feliz com os sobrinhos e não precisando trabalhar mais, sentia-se feliz, também.

Rosa, por sua vez, amava os sobrinhos e sentia-se feliz na casa da irmã, temeu em voltar e ficar na casa da irmã que, por tanto tempo, tratou-as com muita indiferença.

Nunca entendera Ofélia nem o porquê de seu afastamento.Concordou em vir por Zélia, que estava doente, necessitando de cuidados médicos, remédios caros e boa alimentação. Por mais que trabalhasse o dinheiro era insuficiente, passara a fazer faxinas em casas particulares e à noite fazia seus trabalhos manuais o que, embora trabalhoso, não rendia muito. Mas, vendo Ofélia fazer tudo para agradá-las e Zélia tranqüila e medicada, estava agradecida à irmã e ao cunhado.

Paulo, este perturbava-a sempre amara-o com intensidade, nunca mais pensara em se casar, fugira de todos os homens que se aproximaram dela. Bonita, honesta, simpática e trabalhadeira, foram muitos os que tentaram conquistá-la com idéias de casamento. Revendo-o, percebeu com tristeza que este amor era forte, mas honesto, como ela. Não ambicionava nada, de coração queria ver ele e sua irmã felizes; tinha pena de Ofélia, inválida naquela cadeira de rodas. Envergonhava-se deste amor e prometeu a si mesma continuar escondendo-o. 

Pensava em ficar ali até Zélia morrer, sabia que mesmo com os cuidados necessários a irmã não ficaria muito entre eles, depois escolheria um convento ou um orfanato para morar, realizando um velho sonho de cuidar de crianças abandonadas. Estava desfrutando do descanso com alegria.

Sempre trabalhou, mas nos últimos meses redobrara o trabalho e sentia-se cansada. Achou Carla maravilhosa e a sobrinha acolheu-a muito bem e tornaram-se amigas.

Após o almoço, Sérgio e Carla levaram as tias para um passeio, Ofélia foi descansar e Paulo foi ler seu jornal. Caio, enquanto esperava a hora de ir para o orfanato, foi para seu quarto, pegou o “Evangelho Segundo o Espiritismo” e começou a lê-1o. Lendo os significados das palavras usadas por Jesus no seu tempo, sem uso no nosso, compreendeu que iria entender melhor os ensinos do Mestre.

Foi ao encontro meia hora antes e alegrou-se ao ver Luísa e Andréa lá, ficaram conversando até chegar todos.

— Caio, gosta do Curso de Administração? - indagou Andréa.

— Gosto de estudar, faço este curso de tanto meu pai insistir, ele sonha em me ver em seu lugar. Amo mesmo a Medicina.

— Tem cara de médico, não sei por que, mas você parece com médico. Riram, Luisa continuou: Se ama a Medicina, deveria pensar melhor e cursá-la, tem tempo, dinheiro e é inteligente. Deve fazer o que gosta e não o que seu pai quer.

— Amo meus velhos, ouço desde pequeno que irei substituí-lo, até agora achei que era mesmo, mas, agora, começo a pensar o contrário e querer estudar Medicina.

— Disse “achava”, não acha mais, deve pensar seriamente no assunto e ver o que quer - disse Luísa -, bons médicos fazem falta principalmente os que amam a Medicina.

— Você tem razão Luísa, estou confuso, vou pensar.

Acho que a Medicina ficou dormente em mim e agora acordou, dá para entender?

— Sim, foi assunto deixado de lado por você e agora veio forte. É para pensar bem, tenho a certeza de que seu pai entenderá, falou Andréa.

— Não sei, e se ele sofrer com isso?

— Que nada, é você que se frustrará em deixar de fazer o que gosta - falou Luísa, otimista, como sempre querendo ajudar.

A turma foi chegando alegre, trazendo doces, balas, brinquedos, etc., para distrair as crianças. Caio não sabia, ficou desapontado por não ter trazido nada.

— Caio, oportunidades não faltarão, temos sempre estes programas - esclareceu Luisa.

Com entusiasmo acomodaram-se nos carros e partiram alegres.

Ao chegar ao Orfanato, às crianças que já os conheciam vieram correndo recebê-los.

Caio emocionou-se ao vê-los, não pôde deixar de pensar que poderia ter sido uma daquelas crianças, se Ofélia não o tivesse aceitado. A turma organizou brincadeiras. Tocaram violão, cantaram, tomaram lanche no pátio, distribuíram os doces e brinquedos.

Caio no começo ficou olhando, sentia-se engasgado pela emoção, acabou pondo-se à vontade e foi brincar com os garotos, jogou bola, serviu de cavalo para os menores.

Acabou cansando, mas, sentiu um bem-estar enorme ouvindo as gargalhadas das crianças. Já escurecia passando do horário do banho das crianças. Luisa reuniu-os, sabiam que era para orar, silenciosos fizeram um círculo de mãos dadas, oraram o Pai-Nosso e Luísa agradeceu em poucas palavras a tarde maravilhosa que tiveram. Luisinho foi convidado a orar. O menino de dez para onze anos, negro de olhos grandes, entrou na roda, olhou para o céu, disse alto e com sinceridade.

— Papai do Céu, obrigado por ser nosso Pai, sabendo do seu amor, já não nos sentimos abandonados. Ajuda-nos a crescer e sermos bons para termos sempre amigos. Porque a vida se enfeita com a flor da amizade. Proteja também estes amigos, lembrando-os de voltar, porque é tão bom tê-los aqui. Amém.

Os jovens despediram-se das crianças e partiram, estavam todos felizes, mas fizeram o trajeto silenciosos, estavam cansados. Caio deixou os jovens que estavam com ele em frente ao Centro Espírita e foi para casa. 

Após tomar um banho, ficou no seu quarto lendo e não saiu como estava acostumado.

“Como este livro me esclarece! – exclamou -, será meu livro de cabeceira!”

Na segunda-feira pela manhã ao tomarem o desjejum, Caio pediu ao pai para que o dispensasse do trabalho naquela semana. Paulo concordou e nem perguntou o porquê. O medo de perder o amor do filho fizera-o pensar mais neles e percebeu que amava-os muito e desejava vê-los bem e felizes. Admirava o filho mais velho pela coragem, por sua atitude e por vê-lo tão amoroso com Ofélia.

Caio foi para a Faculdade, ao retornar para casa, almoçou, foi para o quarto e voltou à leitura. Queria ler os livros que Irineu lhe emprestara e pensar no que ia fazer e estudar. Por três dias, leu as obras de Kardec, achando explicações para tantas indagações que antes nunca entendera.

Quinta-feira marcara um encontro com Luísa e Andréa na casa delas para discutir e comentar o Espiritismo. Caio lá estava no horário marcado. A mãe das moças recebeu-o bem e acomodaram-se na sala. Logo após, chegou Flávio, amigo delas que também se interessava pela Doutrina.

Luísa fez uma prece, abriu o Evangelho e leu um texto:

“A Ventura da Prece”.

Caio já tinha lido, mas escutar parecia-lhe diferente.

Preces, orvalho divino; preces suavizam o calor das paixões, levam-nos ao caminho que conduz a Deus; preces que harmonizam; preces que consolam.

— Que beleza - exclamou Flávio -, então no Espiritismo dá-se valor à oração?!

— Sim e como! - disse Andréa. Oração é o alimento da Alma, ao orar o Pai Nosso, pedimos: “O pão nosso de cada dia nos dai hoje.” Alimentar o corpo é importante, é dar valor ao período encarnado, neste envoltório do Espírito, não só devemos alimentá-lo, como higienizá-lo, cuidar dele evitando tudo o que 1he é nocivo, não viciá-lo. Mas, caros amigos, devemos também alimentar o Espírito. Somos eternos e sobrevivemos após a morte do corpo.

Alimentamos o Espírito com orações, bons pensamentos, praticando o Bem, amando a todos como irmãos, perdoando todas as ofensas e não fazendo mal a ninguém. E nós espíritas devemos alimentá-lo também com estudos, conhecimentos, porque ao desencarnarmos partiremos do plano físico para o espiritual somente com a bagagem de conhecimentos e com nossas obras.

— Devemos pedir em oração o que almejamos? - indagou Flávio interessado.

— Sim, por que não? - esclareceu Luísa -, nossos pedidos devem ser justos e simples, devemos pedir só o

Bem, tanto para nós, como para outras pessoas. Devemos também pensar que antes da nossa vontade, dos nossos desejos, está a Vontade e Sabedoria do Pai que nos ama.

— Foi isto que Jesus fez no Horto na quinta-feira Santa - lembrou Caio.

— Sim - continuou Luísa -, porque nem sempre o que pedimos é realmente bom para nós, para nosso Eu, ao nosso Espírito. Ás vezes desejamos algo que seria como dar uma faca afiada a uma criança, satisfazendo-a, mas estaria correndo o risco de cortar-se e sofrer mais. Porém, só o fato de orar com sinceridade e fé, acalma-nos e uma doce paz nos envolve, isto é o mais importante.

— Que força poderosa! - Exclamou Flávio.

— Sim - confirmou Luísa -, que força maravilhosa temos ao nosso dispor e acessível a todos!

— Luísa - disse Caio -, narra-nos os Evangelhos que Jesus ora muito.

— É verdade, o Mestre deu-nos exemplos; muitas vezes afastava-se de todos para meditar e orar. E, a pedido dos discípulos, ensinou-nos a oração belíssima do Pai-Nosso, a nossa oração dominical.

Contaram alguns fatos sobre o assunto, do poder da oração, que nem viram o tempo passar, já escurecia quando Caio e Flávio foram embora.

— Vou ser espírita, disse Caio - pensando alto -, vou ser um espírita estudioso. Por enquanto não direi nada em casa, é melhor dizer aos poucos.

Antônia e eu fomos visitar Marcelo e família. Cidinha sentia-se magoada, mas, com o agrado e carinho dos pais, recuperava-se, passara a semana entre compras e as amigas.

Marcelo tudo fazia para que não se falasse em Caio e evitando que Helena e a filha tivessem esperanças de uma reconciliação. Admirava mais ainda Caio e pensava que perdera o genro ideal, orava por ele para que não sofresse e que fosse feliz. Diariamente conversava com Paulo trocando notícias e, como o amigo, respeitava Caio por sua atitude.

— Antônia - disse-lhe -, tudo está bem agora. Caio achase bem e na Doutrina Espírita compreenderá e superará melhor os problemas. Com tudo resolvido, parto.

— Agradeço-lhe pela ajuda Antônio Carlos. Mas, antes de ir, venha dar uma olhada em Ofélia.

Ofélia encontrava-se sozinha na sala, estava tranqüila e calma, orava, aproveitando o silêncio que reinava àquela hora na casa. Observei-a, o corpo físico de Ofélia enfraquecia dando sinais de um desligamento lento. Seu coração poderia parar a qualquer momento.

— Deverá desencarnar logo. Deseja Antônia que a ajude?

— Ofélia deve ser libertada da prisão da carne, regressa feliz, é boa, justa, sofreu anos com resignação. 

Vendo as irmãs aqui com seus filhos, sente-se tranqüila. Não dispõe Antônio Carlos, de mais alguns dias?

Pensei por instantes.

— Antônia devo voltar aos meus afazeres, mas disporei de algumas horas por dia para estar aqui, ajudar Ofélia e na decisão de Caio.

— Decisão de Caio?!

— Tudo indica Antônia, que seu filho cursará Medicina.

Veremos o que decidirá.

 
Médium: Vera Lúcia M. Carvalho
Espírito: Antônio Carlos

Deus proteja a todos...

abçs,
 

sábado

Filho Adotivo IX

IX 
O ENCONTRO DE JOVENS

Ao entrar na sala, Caio estranhou encontrar a mãe à sua espera.

— Caio, onde esteve? Estou preocupada com você, filho:

Cidinha telefonou várias vezes atrás de você, disse-me que tinham um encontro e que não foi.

— Encontrei uns colegas da escola e fomos a um barzinho conversar. Se soubesse que ficaria preocupada, teria telefonado avisando.

— Ainda bem! Agora fico tranqüila, preocupo-me muito com vocês, resolvi esperá-lo, não conseguiria dormir sem saber onde esteve e vê-lo em casa. Caio Cidinha também está preocupada, telefone para ela para tranqüilizá-la.

Caio pensou por uns instantes, achou melhor dar notícias, conhecendo Cidinha, esta deveria estar pensando logo em acidente ou assalto. Pegou o telefone e discou. Cidinha atendeu, aflita. Caio secamente disse que chegara e estava bem.

— Se tiver explicações, darei amanhã. Finalizou sem sequer se despedir e desligou.

Ofélia, que observava o filho, indagou preocupada:

— Que há, Caio? Tratou Cidinha com dureza!

Caio sentou-se numa almofada ao lado da cadeira da mãe, deitou a cabeça no colo de Ofélia, esta passou as mãos sobre seus cabelos.

— Que acontece, Caio? Conta-me, filho.

— Mamãe, necessito da senhora, de seu conselho, tenho pensado, descobri que não amo Cidinha, estou mesmo farto dela, quero terminar o namoro.

— Você tem certeza? Pensou bem? - com a afirmativa de cabeça do filho, Ofélia continuou: “Meu filho, para que uma união dê certo, é necessário ter amor, este casamento seria do gosto de todos, mas, deve primeiramente ser do gosto de vocês”. Gosto de Cidinha, pensei ser a moça certa para você, se acha que não, concordo com você, deve terminar o namoro. Falarei com seu pai, farei com que entenda. Marcelo e Paulo já davam como certo este casamento.

— Obrigado mamãe sabia que podia contar com a senhora. Adoro a senhora, sabia?

— Sei filho, sinto seu afeto, amo-o muito também...

— Acho-a tão linda, é a maior, a melhor mãe do mundo!

Beijou as mãos da mãe e pensou:

“Se Ofélia não é minha mãe de carne, é pelo amor, não conseguiria amar ninguém mais que a ela.”

Paulo estava também preocupado com o filho, não querendo demonstrar sua aflição à esposa ficou acordado no quarto, aguardando o retorno de Caio. Ao escutar barulho, cuidadosamente ficou escutando a conversa da esposa com o filho na sala ao lado.

“Caio que filho maravilhoso é você!”

Emocionado, esbarrou na mesa e fez barulho, então entrou na sala.

— Caio, já voltou? Está bem, filho? Onde esteve?

Deixou-nos preocupados.

— Estou bem, papai, estive com colegas da escola, ficamos conversando e esqueci de avisar, mamãe já me desculpou.

— É melhor dormirmos agora. Vem deitar Ofélia, já é tarde.

Caio beijou a mãe no rosto, sorriu para o pai e foi para seu quarto.

— Paulo, - disse Ofélia-, Caio é tão bom, não é mesmo?

É o mais amoroso de nossos filhos.

— É verdade, Ofélia, Caio é bom moço.

— Paulo, se Caio lhe desse um desgosto?

— Desgosto?! - indagou preocupado.

— Talvez não fosse um desgosto.

— Fala logo, Ofélia. Que tem o menino?

— É que Caio quer terminar o namoro com Cidinha.

— Só isso? Que susto!

— Pensei que ia achar ruim.

— Você falou em desgosto, nem sei o que pensei. Ele disse o porquê?

— Disse-me que não a ama, enjoou do namoro.

— É um bom motivo. Caio sabe o que faz.

— Pensei que ia ficar nervoso. Queria tanto que se casassem...

— Ofélia, amo meus filhos. Prometi a mim mesmo, desde o tempo em que meus pais interferiram no nosso casamento, que não ia forçar na decisão dos meus filhos nas suas escolhas. Por meus pais, não teria me casado com você, e nosso casamento deu certo. Amamos Ofélia, eu não poderia ter escolhido ninguém melhor para esposa, é maravilhosa, somos felizes. Cidinha é a nora ideal, gosto dela, mas de que adianta? É Caio quem tem que amá-la, é ele que vai casar com ela. Se você está intercedendo por ele, diga-lhe que está tudo bem, entendo.

— Se Marcelo e Helena acharem ruim?

— Ora, Ofélia, por que iriam achar ruim? Melhor agora que depois de casados...

— Isto é! Não entendo Caio, parecia apaixonado, de repente, enjoa.

— Eu já tinha notado que Caio forçava o namoro.

— Notou? Eu não, acho que ando distraída. Você não vai mesmo brigar com nosso filho?

— Não Ofélia, Caio é um homem e sabe o que quer.

— Que bom você ter entendido!

— Você não entendeu?

Ofélia sorriu, estranhou um pouco a atitude do esposo, mas, deu graças a Deus por ele ter compreendido; despreocupada, dormiu logo.

Caio, cansado com os muitos acontecimentos, saturado de bons fluidos, adormeceu assim que se deitou.

No outro dia, sábado, Caio passou o dia aflito ansiava por chegar a noite e terminar o namoro, que agora lhe parecia sacrilégio. Cidinha ansiava pelas explicações do namorado, pois logo cedo as amigas contaram-lhe que o viram no bar em companhia de desconhecidos.

No horário costumeiro, Caio foi até a casa de Cidinha e esta esperava-o emburrada.

— Muito bem, Caio, ontem não veio encontrar-se comigo, mas foi ao bar com uma turma desconhecida e estava todo atencioso com uma das meninas. 

Que explicação você me dá?

— Nenhuma, esqueci do nosso encontro.

— Que?! Esqueceu?! Quem é a garota?

— Colega de Faculdade.

— Só colega?

— Linda moça, educada e simples.

— Caio, fale a verdade, quem é ela?

— Luísa.

— Quero saber quem é ela para você? Namorada?

— Gosto dela.

— Oh!

Cidinha era orgulhosa, acostumada a ter suas vontades realizadas, mesmo por parte de Caio que sempre a mimava, levou um choque, esperava mil desculpas do moço e ele tratava-a friamente, espantou-se mais ainda, quando ouviu:

— Cidinha, é melhor terminar nosso namoro.

— Que?! Terminar tudo! Se me pedir desculpas...

— Não quero pedir. Acho que não dá mais, nosso namoro está chato e...

— Que desaforo! Chato é você! Eu é que quero terminar tudo. Merece esta outra, fica com ela.

Cidinha levantou-se num salto, saiu da varanda, entrou em casa, deixando Caio sozinho que também se levantou e foi embora. O filho de Antônia estava triste, mas aliviado, pensou: “Agora é só fugir de Cidinha, fingir que namoro outra, com o Sr. Marcelo e papai ajudando-me ficará mais fácil. Devo, de agora em diante, pensar em Cidinha como minha irmã, devo gostar dela como gosto de Carla.”.

Resolveu ir a um cinema, escolheu uma comédia para distrair-se. Não queria chegar cedo em casa, não tinha vontade conversar com ninguém. E chegar cedo em casa, em noite de sábado, todos iriam querer saber o porquê. 

Cidinha, deixando Caio na varanda, entrou na sala, correu para a mãe e começou a chorar. Helena abraçou a filha, Marcelo largou o jornal que estava lendo e sentou-se perto delas.

— Filhinha, que houve? - indagou Helena preocupada.

— Caio e eu terminamos o namoro.

— Grande rapaz! - exclamou Marcelo.

— Quê?! Está do lado dele? - indagou indignada Helena.

— Eu?! Não! Disse grande tolo, o rapaz.

— Ah! Conta-nos tudo filha que houve?

— Caio saiu ontem com uma turma e ficou todo meloso uma das moças.

— Não é mentira? - indagou Helena

— Caio confirmou e disse mais, que gosta dela.

— Infeliz! Tolo! - exclamou Helena.

— Cidinha, filhinha, - disse Marcelo -, isto não é tragédia, não deve sofrer por isto. Foi melhor ele ter namorado outra agora, que depois de casado...

— Marcelo! - Disse a esposa aborrecida -, Caio disse que prefere outra a nossa filha e você parece não se importar!

— Por isto mesmo, se prefere a outra, não é tão maravilhoso como pensávamos, e não quero minha filhinha chorando por quem não a quer.

— Isto é! - responde Helena.

— Cidinha, - continuou Marcelo -, não fique triste, vou comprar para você aquela pulseira de rubis e brilhantes, mais bonita e mais cara que a da Susane. Vou também dar sua mesada em triplo, que tal?

— Verdade? Oh! Papai amo o senhor! Vou comprar roupas novas!

— Isto filhinha, - disse a mãe -, Caio se arrependerá logo ao vê-la tão bonita.
— Helena, - falou Marcelo -, vamos esquecer Caio, temos nosso orgulho, não devemos mais falar deste moço.

Cidinha ficará linda e suas amigas verão que ela nada sentiu em terminar este namoro idiota.

— Idiota? Não pensava assim, não gostava de Caio? - indagou Helena.

— Disse bem, gostava. Desde que preferiu outra que fique com ela. Cidinha merece outro melhor. Cidinha começou a chorar novamente.

— Mesmo idiota papai quero ele.

— Que nada! Não tem orgulho? Amor-próprio? Não deve querer quem não a quer.

— Que raiva! - desabafa Helena -, Caio merece uma lição, falarei a Ofélia e ao Paulo do filho horrível que eles têm.

— Não vamos falar nada, Helena, vamos deixar a família à parte. Se quiser fale com Paulo, com Ofélia, não, já sofre tanto. Não devemos romper com eles, amigos de tanto tempo, por causa de brigas de jovens. Se você for falar com eles, dará a impressão de que estamos forçando Caio a namorar Cidinha.

— Isto é que não! - falou Cidinha -, se Caio tiver que voltar, terá que ser de joelhos...

— Helena, é melhor deixar que se entendam, devemos entreter nossa filha, - falou Marcelo.

Cidinha parou de chorar, estava no colo da mãe que a mimava como criança, seus olhos brilharam ao pensar no presente.

— Papai, a pulseira será como eu quero? Poderei escolhê-la?

— Claro filha, segunda-feira irá com sua mãe nas joalherias e escolherá o que quiser, darei a você, não importa o preço.

Cidinha começou a falar da pulseira, Antônia e eu saímos.

— Foi fácil, - disse a Antônia -, Marcelo conhece a filha e sabe como entretê-la. Com os dois a confortá-la, esquecerá logo.

— Cidinha acha que Caio voltará.

— Perderá logo a esperança e esquecerá, Cidinha confundiu os sentimentos, gosta de Caio, não o ama.

Após o filme, Caio foi para casa e deitou-se logo. A imagem de Cidinha veio-lhe à mente; “Será que ela estaria sofrendo?” pensou triste. Se está sofrendo, sofre menos do que soubesse a verdade. “Tinha que pensar nela só como irmã.”

Parecia um tanto difícil a ele que, dias antes, pensava amá-la.

“Ah! Meu Deus! - sussurrou baixinho -, como é difícil dizer: “Pare de pensar nela, deixa de amá-la”. Como mandar em sentimentos? Será que a amei mesmo? Não devo amá-la, permita que não, Jesus, gosto dela, somente.”.

Caio chorou, sofria, orou, confundiu as orações, dei-lhe passe, foi se acalmando e dormiu.

No outro dia, levantou-se cedo, só a mãe e as tias estavam acordadas, dizendo ter encontro com amigos, Caio saiu de casa para ir ao Centro Espírita.

A turma o esperava em frente do prédio, alegraram-se em vê-lo, cumprimentaram-no os conhecidos e apresentaramno aos outros. Caio sentiu-se bem, à vontade, simpatizou com todos.

Entraram muitos jovens estavam presentes, separavam-se por faixa etária formando diversos grupos, cada grupo foi para uma das salas. Caio ficou no salão entre Andréa e Luísa. Um casal de meia-idade estava na frente, Andréa explicou a Caio:

— Hoje, a reunião será diferente, convidamos um casal para uma palestra.

Não demorou, deram o início.

Andréa fez a oração inicial com emoção, pedindo ao Pai Celeste forças a todos os jovens para resistirem aos vícios que no momento arruinavam tanto o físico como o Espírito de tantas pessoas. Pediu a Jesus a coragem para não se envergonharem a ser chamados de “caretas”, “ridículos”, por estar no caminho certo. Oraram o Pai-Nosso.

O senhor explicou sorrindo que não eram tão velhos e que preferiam ser chamados de Irineu e Magali. Em seguida, pegou um livro e começou a ler. Caio leu o titulo: “O Livro dos Espíritos”.

O texto falava sobre a pluralidade das existências, das muitas vezes que nós, em diversas épocas e de muitas formas, encarnamos na terra. As diferenças não são injustas, muitas vezes são colheitas do passado, ou são formas de aprendizado ou de estágio, pobres ou ricos, inteligentes ou débeis, perfeitos ou inválidos, são oportunidades que temos de resgatar erros ou repará-los. Deus não seria justo se presenteasse uns com beleza, inteligência e a outros castigasse com feiura e pobreza.

Deus não castiga nem recompensa; somos nós que, ao praticarmos erros, plantamos a má semente que um dia iremos colher. Ao praticar o mal contraímos uma dívida para conosco e para com aqueles que prejudicamos. Chega o dia em que teremos de resgatá-las. A maldade feita por nós desarmoniza-nos e harmonizamo-nos pelo sofrimento ou fazendo o Bem.

Perguntas foram feitas e dadas opiniões, Caio escutava atento, quis indagar, mas achou que, por não conhecer nada, poderia fazer perguntas primárias, até ridículas.

Estava entendendo que Luísa tinha razão, as explicações ouvidas vinham diretas ao seu raciocínio, satisfazendo-o.

— Irineu, - indagou um dos jovens -, e o débil mental?

Como explica-nos o Espiritismo um Espírito encarnar em um corpo tão debilitado?

— Tudo o que temos perfeito devemos conservar, cuidar para que continue. Você, meu jovem, é perfeito moço, bonito e inteligente, seu corpo é perfeito. Se passar a tomar drogas, bebidas alcoólicas em demasia, danificará seu corpo e por vontade própria. Seu cérebro perfeito desarmoniza, desencarna e seu perispirito estará doente e poderá transmitir na encarnação futura o estado perispiritual. 

Ou se você agora suicidar-se, dando um tiro na cabeça, danificando o que tem de perfeito, desarmonizao e voltará para harmonizá-lo no corpo físico que poderá vir a ser deficiente. São muitas as causas que fazem com que um Espírito reencarne num excepcional, vemos também pelos estudos espíritas que pessoas inteligentes, usando sua inteligência para o mal, desarmonizando, podem encarnar em corpos debilitados para se ajustar perante as Leis Cósmicas.

— Luísa, - cochichou Caio -, parece que nada que este senhor fala me é desconhecido, incrível! Tenho a certeza de que nada parecido escutei sobre o assunto!

— Irineu, - falou alto Luísa -, Caio, meu amigo, acaba de dizer-me que parece que sabia disso tudo, porém, garante nunca ter ouvido falar sobre este assunto.

Caio encabulou-se, olhou feio para Luísa que nem se importou. Irineu deu sua explicação:

— Tantas vezes este fato nos acontece. É prova para os crentes da existência de outra vida encarnada ou de um aprendizado num período desencarnado. Tantas coisas que fazemos, vemos ou escutamos a primeira vez, nos parecem conhecidas, sentimos que recordamos, sem conseguir saber onde aprendemos, vimos, etc. 

Caío, você tanto pode ter aprendido sobre este assunto em outra existência como ter estudado no período em que esteve desencarnado no espaço espiritual.

Caio gostou da explicação, sentiu no íntimo que era isso mesmo, aproveitou e disse:

— Gosto deste local, gostei do que ouvi, sinto que me encontrarei no Espiritismo. Realmente, parece que já sabia do que foi dito aqui, porém não recordo de mais nada.

Quero pedir para fazer parte do grupo.

— Claro, - disse Irineu -, seja bem-vindo, já é um dos nossos jovens. Se quiser, leve para ler os livros básicos de Kardec e aqui estaremos para explicar o que não entender.

O objetivo deste encontro é reunir jovens e estudar as verdades eternas, estudar o Espiritismo, para aqueles que querem este estudo, são setas no caminho que nos levará ao progresso espiritual.

Após, o grupo comentou sobre o trabalho que fazia junto a creches, asilos e orfanatos. Naquela tarde iriam a um orfanato. A oração final foi feita por Márcio que pediu bênçãos ao novo companheiro. Caio emocionado agradeceu em pensamento por ali estar e a oportunidade de fazer parte de um grupo tão legal.

Todos saíram, combinaram encontrar-se às três horas ali, na frente do Centro Espírita, para se organizarem nos carros de que dispunham para ir ao orfanato.

Caio foi para casa tranqüilo, com os livros que Irineu emprestara-lhe, pensando em começar a lê-los naquele mesmo dia.

 
Médium: Vera Lúcia M. Carvalho
Espírito: Antônio Carlos

Deus proteja a todos...

abçs,