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quinta-feira

Nossos Filhos São Espíritos // 23

23 
PRESENÇA DE DEUS 
O LEITOR ATEU OU DESCRENTE (devo imaginá-lo de muitos matizes ideológicos) há de estar perguntando a si mesmo: mas que tem Deus a ver com tudo isso? Se perguntou, deixe-me responder com outra pergunta. Assim: o que não tem Deus a ver com isso e com tudo o mais no Universo?

Quanto aos demais, crentes e praticantes de muitas religiões ou seitas,também podem pensar que isso é problema pessoal, que cabe a cada um de nós resolver. Em princípio, estaríamos de acordo. Práticas religiosas ou atitudes agnósticas são posturas estritamente pessoais e representam opções, igualmente pessoais, que devem ser respeitadas. O que não impede que possamos conversar, de modo educado e civilizado, acerca dos vários aspectos envolvidos.

Devo portanto dizer, como que para tranquilizar o leitor, que não é minha intenção fazer pregação ou tentar induzi-lo a esta ou àquela seita. Isso tudo faz parte de um contexto bastante complexo, como resultante de não poucos fatores mais ou menos imponderáveis.

Em minha opinião, é mais importante um legítimo sentimento de religiosidade do que a adoção ou filiação formal a esta ou àquela instituição religiosa.

Creio (e espero) que, a esta altura, estejamos todos convictos de que as crianças são seres preexistentes e que trazem na bagagem espiritual ampla experiência religiosa, entre outros tipos de vivência. Sabe-se que, em tempos mais remotos, astros, fenômenos naturais, bichos, totens e até seres humanos constituíram objeto de adoração e divinização. Gregos e romanos tinham deuses para tudo, mas seria tolice pensar que eram ignorantes. 

A mitologia, ao contrário, é uma forma muitíssimo inteligente de montar um sistema religioso que nos mostre, sob forma alegórica e de fácil assimilação, as complexas relações entre as diversas forças da natureza, ou, para dizer a mesma coisa com outras palavras: como se manifesta, no mundo em que vivemos, a vontade de um Deus único.

A verdade é que não são muito satisfatórios os critérios usuais quanto à escolha da religião que nossos filhos poderão, eventualmente, adotar (ou não).

Ou costumamos deixar que as coisas simplesmente aconteçam, ou forçamos as crianças a adotarem “nossa” religião, ou seja, a dos pais ou responsáveis.

Por isso encontramos tantas pessoas desorientadas em questões de vivência religiosa. E não são poucos os conflitos suscitados por divergências e desentendimentos nesse campo, usualmente tão sensível.

Para muitos, a religião é apenas um hábito, uma obrigação social, um aspecto secundário da vida, ou, como tantos dizem, um “freio”. (Seremos automóveis ou, pior ainda, animais de tração ou montaria que necessitem de freios?) Em famílias mais ou menos acomodadas a esta ou àquela religião, os filhos são encaminhados para as instituições frequentadas pelos pais, o que é compreensível, e lá ficam para o resto de suas vidas, sem mesmo cogitar de saber se é aquilo mesmo que desejam, o que é questionável. 
Costumo dizer que são católicos, protestantes ou ateus genéticos, como se houvessem herdado dos pais um determinado gene específico embutido na cadeia do DNA, como, aliás, pensa muita gente.

É certo que uma educação religiosa deve ser ministrada às crianças, da mesma forma e intensidade com a qual outras disciplinas lhes são ministradas. As instituições espíritas, por exemplo, prestam relevante serviço através das escolas de evangelho para a infância. 
Creio mesmo que o ideal seria interessar a criança, em fase mais amadurecida, aí pela adolescência, por estudos de religião comparada, ainda que os pais sejam irreligiosos ou até refratários a qualquer filosofia religiosa. 
Não que isso seja essencial à escolha de uma religião adequada para cada um de nós, mas porque nos proporcionaria tal exame uma visão mais ampla de aspectos vitais ao entendimento da vida.

Trazemos em nossa bagagem cultural matrizes ideológicas consolidadas ou ainda imprecisamente definidas. As experiências passadas não são decisivas na escolha de uma postura religiosa ou agnóstica em cada vida que se inicia na Terra. 
Não poucas vezes, a escolha é decidida previamente, ou seja, antes de nascer, quando a pessoa resolve se dirigir ou é encaminhada, por motivações que lhe são respeitáveis, a uma família católica, protestante, judia ou muçulmana, por exemplo. E nem sempre é para adotar, automaticamente e sem restrições ou dificuldades a religião de seus pais e irmãos, e, sim, para tentar influenciá-los para que considerem outras opções.

Daí encontrarmos, às vezes, crianças que, desde que conseguem expressar um pouco do que lhes vai na mente, começam a mostrar sinais de rejeição à religião de seus pais, irmãos, amigos e parentes, o que costuma resultar em penosos conflitos, se não prevalecer o bom senso da tolerância.

Na verdade, ao contrário de unir as pessoas, mesmo porque a maioria dos cultos expressam de maneira diversa as mesmas crenças básicas, as religiões costumam, paradoxalmente, suscitar incrível volume de intolerâncias, de ódios e rancores de difícil conciliação. Os religiosos mais intransigentes tendem a considerar suas respectivas seitas não apenas como a melhor, mas a única, fora da qual não há salvação possível para os “infiéis” de todos os matizes. 

O pior é que nem todos, e nem sempre, se limitam a lamentar os que não pensam exatamente como eles, mas tudo fazem para convencer aos outros da sua verdade pessoal ou, pior ainda, querem obrigar todos a adotarem sua fórmula de crer ou de não crer. Não há como disfarçar: a descrença é também uma forma de culto, com rituais, intolerância e fanatismo, semelhantes aos encontradiços nas diversas instituições religiosas.

Nutro a esperança de que os conceitos que vimos debatendo neste livro possam contribuir para uma visão mais aberta, ampla e inteligente do problema religioso. Afinal de contas não estamos vindo todos, sem uma única exceção, de um desconhecido número de existências, nas quais adotamos tantas e tão diversas maneiras de considerar os aspectos religiosos? 
Quem diria que já adoramos o sol, a lua, ídolos, pedras, animais, objetos, árvores e tantos e tantos deuses e deusas? Tudo isso é experiência, é aprendizado, e disso resulta um seguro e incessante processo de abordagem da Verdade, por sucessivas aproximações.

O trato com os espíritos, ao longo de muitos anos, em nossos trabalhos de intercâmbio com eles, proporcionou-nos uma visão, diríamos, privilegiada, do delicado problema religioso. O que observamos junto deles é a multiplicidade de experiências religiosas e as mudanças que se vão operando em cada um, no correr dos tempos.  
A medida que trocamos de corpos físicos e de contextos sociais, históricos, geográficos e culturais, vamos também substituindo, por outras mais racionais, nossas crenças. Infelizmente, muitas vezes, mudamos apenas as aparências externas, as vestes sacerdotais, os cultos, ritos e posturas, deuses e dogmas, fórmulas e estruturas hierárquicas, mas continuamos fanáticos, dogmáticos, intolerantes, exclusivistas e ambiciosos, interessados em seitas religiosas apenas na medida em que podem servir de plataforma de lançamento para ambições pessoais e exercício do poder.

Temos dialogado com espíritos que foram tão fanáticos e intolerantes ao combaterem e ajudarem a condenar o Cristo, porque pertenciam às hierarquias sacerdotais da época, como fanáticos e intolerantes seriam, séculos depois, agora nominalmente cristãos, ao perseguirem e condenarem os que não queriam ser cristãos ou, pelo menos, não conseguiam aceitar a forma de cristianismo que lhes estava sendo oferecida.

Tivemos depoimentos de outros que, de tal maneira se comprometeram perante a lei divina, no exercício do poder religioso (E que estrutura de pensamento proporciona mais imperiosa forma de poder do que a religiosa?), que passaram a combater toda e qualquer ideia, instituição ou conceito de natureza religiosa.

Sejamos, portanto, realistas: as crianças são pessoas que trazem consigo denso conteúdo de experiência religiosa do passado. Dificilmente teria sido possível viver tantas vidas sem um envolvimento maior ou menor, aqui ou ali, no tempo e no espaço, com as inúmeras seitas que o mundo tem conhecido.

Muitas, senão a maioria de tais vivências, foram desastrosas, deixaram sequelas de difícil erradicação e indeléveis marcas na mente e no coração de muita gente. E não foram somente os que praticaram erradamente as religiões ou as usaram como instrumento de opressão, mas também os que sofreram em conseqüência de tais erros e penaram sob o peso de insuportáveis opressões. Isso acontece porque a lei costuma determinar a reversão das posições e o fanático de hoje será, fatalmente, a futura vítima do fanatismo alheio.

Ante esse quadro um tanto aflitivo, parece irrealista esperar crianças perfeitamente ajustadas aos conceitos de religiosidade e dispostas a optar, desta vez, por uma expressão religiosa equilibrada, serena, convicta e de elevada condição ética. 
Foram muitos e severos os desequilíbrios, os desacertos, os equívocos e até mesmo os crimes cometidos em nome de Deus, e desastrosamente justificados como expressões mesmas do próprio amor a Deus ou ao Cristo, ou aos códigos tidos por sagrados, únicos e irretocáveis.

Nesse aspecto mais sensível para muitos, é meu propósito não ilustrar o relato com casos alheios. Resta-me a alternativa de um depoimento pessoal.

Deve se lembrar o leitor de que, páginas atrás, disse-lhe eu que me foi concedida a oportunidade de conhecer larga faixa de minhas vivências anteriores. É verdade isso e sou muito grato aos orientadores e instrutores espirituais que contribuíram para que tais coisas me fossem ensinadas. 
Com elas eu consegui armar o painel panorâmico que hoje me proporciona uma visão de fantástica beleza e harmonia que, decisivamente, contribuiu para a elaboração de uma filosofia de vida fundamentalmente religiosa, não como atitude para ser assumida uma ou duas horas por semana, mas como postura permanente. Não é a religião um aspecto da vida, mas a vida em si é religião, no sentido de que tudo está em Deus, tudo se move Nele, tudo se regula pelas leis naturais que a Inteligência Suprema criou, tudo converge para Ele e d’Ele reflui.

Sei, pois, de existências vividas em templos egípcios, em épocas mitológicas, como na Grécia, em estruturas hebraicas de pensamento, tanto quanto não poucos séculos de militância ativa na Igreja Católica e, em seguida, na derivação reformista do século 15I. Que lições posso tirar de tudo isso senão a de que muita coisa somou e outras tantas subtraíram-se na manipulação dessa espantosa massa de experiência religiosa? 

Foi o que tornou possível destilar-se, à chama de não poucos sofrimentos, equívocos, desenganos e erros mais graves, conceitos purificados que hoje me sustentam acima da mera crença, para assumir a estatura e a solidez de uma convicção.

Esta: somos espíritos imortais, indestrutíveis, perfectíveis, e para isso é que vamos e voltamos, entre um mundo e outro, ou seja, entre as duas faces, os dois aspectos do mesmo mundo. Um deles, de maior densidade material, exploramos com os sentidos limitadores que a carne nos proporciona; no outro, mais diáfano, exploramos diferentes formas de vida não menos real do que esta, para a qual dispomos de outras sensibilidades, refinadas, sutis, abrangentes e superiores.

Ao iniciar-se esta vida, vi-me naturalmente encaminhado para o catolicismo, a religião de minha mãe. Foi ela quem me ensinou a orar, essa magnífica e insubstituível maneira de conversar com Deus. Era quem me falava de Deus, do Cristo e do Evangelho. 
Era quem me pregava, na singela e veemente expressão do exemplo, tanto quanto da palavra, uma ética limpa e de fácil entendimento. Como viria eu a observar mais tarde (ou como já observara antes, não sei), a Verdade é simples, discreta, silenciosa, transparente, tão singela que muitas pessoas nem se dignam olhar para ela.

Julgam-na uma inexpressiva e anônima figura, perdida na multidão do erro que grita, que usa roupas berrantes e se mostra aos passantes e até os segue, a puxar-lhes pelas vestes.

Era simples e prática a decisão de minha mãe a nosso respeito, ou seja, quanto aos dez espíritos que acolheu generosamente para gerar-lhes os corpos e guiar-lhes os primeiros passos na nova vida. Manteve-se católica até o fim, praticando, de modo assíduo e convicto, a religião de sua escolha, mas sem fantasias ou beatismos. (“Primeiro a obrigação”, ensinava ela, “depois a devoção.”) Enquanto estivéssemos sob sua responsabilidade, ficaríamos sob a tutela da Igreja Católica. Daí em diante, a opção seria nossa, tanto quanto a correspondente responsabilidade.

Lembro-me que, ainda na dependência de seus devotados cuidados e canseiras, comecei a sentir o desencanto pela religião de sua preferência. Não me atraíam os rituais, os sacramentos e obrigações paralelas, mas, principalmente, as estruturas de pensamento que me eram oferecidas.

Eu começava a questioná-las e nem sempre as respostas e esclarecimentos eram satisfatórios. Estou certo de que ela percebia tais vacilações e inquietações, como também é certo que me solicitava docemente a insistir na prática religiosa na qual via tantas consolações para suas dificul­dades, lembrando-me a missa, ou as obrigações sacramentais de praxe, nas épocas devidas, para que não pusesse em perigo minha alma, pela qual, certamente, ela se interessava, e muito.

Nunca, porém, forçou nada e nada impôs, a nenhum de nós. Era de supor-se que teria preferido todos abrigados devotadamente sob as asas da sua amada Igreja, mas não desejou tomar por nós decisões que entendia pertencerem a cada um, a não ser no período da infância, quando não tínhamos condição para considerar os fatos, analisá-los e decidir o rumo a seguir.

Sou grato a ela por tudo isso: o bom senso, o equilíbrio, a inteligente maneira de agir. Mais do que grato, considero-me privilegiado por ter tido a oportunidade de conviver com um espírito generoso e pacífico, embora decidido e firme, que nos impregnou com seu verdadeiro senso de religiosidade. 
Lembro-me de como isso foi importante para que eu pudesse atravessar, sem maiores conflitos íntimos, o período em que, sem conseguir aceitar mais as estruturas doutrinárias da sua religião, não tinha, ainda devidamente conscientizadas, as que eu certamente trouxera comigo, nas profundezas da memória, como programa de ação para esta existência.

Foi uma época de incertezas, é verdade, de dúvidas e inquietações, de desalento e desencanto também. Se não era aquela a maneira de expressar-me como ser humano perante Deus e o universo em que eu vivia, qual seria então?

Dois importantes pontos de apoio se salvaram em mim e sobreviveram a esse período de reformulação: a existência de Deus, que me parecia mais do que óbvia, indispensável a um universo claramente orgânico e harmonioso, e a grande admiração e respeito carinho mesmo — pela majestosa figura de Jesus e sua filosofia básica, tal como eu podia vê-las nos textos evangélicos.

Essa fase ficou, de certa forma, documentada, de vez que, com o primeiro salário ganho em um emprego melhor, recém-obtido, comprei, em 31 de julho de 1939, um exemplar da Bíblia.

Tinha 19 anos de idade. Minha mãe, sempre atenta, advertiu que se tratava de uma “Bíblia protestante”, certamente porque não encontrava nela o esperado e tranquilizador Nihil Obstat e o respectivo Imprimatur da autoridade eclesiástica competente. Procurei tranquilizá-la, chamando sua atenção para a tradução, de responsabilidade do padre Antônio Pereira de Figueiredo, mas ela percebia determinadas notinhas de rodapé, de aparência um tanto suspeitas para seu gosto. De forma alguma, contudo, interditou o livro às minhas pesquisas. Creio que confiava em mim, e, talvez, na tradução do padre.

Ademais, havia a nota seguinte: “Da edição aprovada, em 1842, pela Rainha D. Maria 2º com a consulta do Patriarca Eleito de Lisboa.”

No fundo, porém, ela sabia que isso não queria dizer muita coisa, pois o texto que eu tinha provinha da edição aprovada pelo arcebispo, o que não queria dizer que era a edição aprovada, mesmo com os dois pp. 
Seja como for, essa é a Bíblia que me tem servido, entre várias outras mais recentes, há mais de meio século.Desde logo passei a encontrar ali ressonâncias harmônicas com meu oculto diapasão íntimo.

Penso hoje que, talvez, naqueles momentos em que eu estudava os textos com a firme deliberação de penetrar-lhes o sentido, desmaterializavam-se as barreiras do tempo e eu ouvia o Cristo ensinando as belezas de sua inesgotável sabedoria. Tantas vidas levara ouvindo e repetindo aqueles conceitos que já os trazia escrito no coração e na memória integral. Era como se reencontrasse velhos amigos e redescobrisse caminhos que trilhara em outros tempos, não sei onde, nem como.

Em suma, o Cristo chegara, de novo, às profundezas do meu ser, ou será que nunca houvera estado ausente e eu apenas não me dera conta de sua presença?

Muitos anos depois, uma pessoa mergulhada em suas memórias do passado me diria que conceitos que eu costumava rejeitar, no contexto das tradicionais seitas cristãs, eram os que não conferiam com aquilo que meu espírito sabia, de alguma forma ainda obscura para mim, não serem expressão fiel do pensamento de Jesus.

Não tenho a pretensão de achar que minha experiência pessoal sirva de modelo a ser adotado por todos ou pelo menos por alguns. Nem me coloco, eu próprio, como um ser redimido, dotado de luminosas virtudes e inatingíveis perfeições. 
Estou bem consciente de minhas limitações e do muito que me falta percorrer até chegar a um estágio de razoável serenidade. Além disso, embora os mecanismos psicológicos sejam idênticos ou muito semelhantes em todos,cada um de nós tem sua peculiar maneira de agir e reagir aos estímulos que a cada momento nos chegam. 

Essa complexa dinâmica é resultante de todo um conjunto de experiências e vivências que por sua vez determinam certo grau de maturidade ou imaturidade de cada um de nós. Somos seres singulares,únicos, universos miniaturizados, partículas de consciência, meros pigmentos coloridos que, juntos, aos milhares, aos milhões, emprestamos cor à comunidade em que vivemos, às épocas, aos contextos históricos, geográficos e sociais em que nos inserimos, de tempos em tempos, vida após vida.

Acabamos encontrando o caminho, pois não há outro senão aquele que leva a Deus. Se muitos são os que resolvem passar pelos atoleiros, pelos desertos e espinheiros, que fazer? Não é direito de cada um — e responsabilidade — o livre decidir pelas opções que se vão apresentando?

Afinal de contas Deus não tem pressa, porque está além e acima do tempo e do espaço, mas é muito pouco inteligente e dói muito, e demora demais chegar, quando nos obstinamos, infantilmente, em fazer a caminhada sem ele, como se isso fosse possível. Um dia fazemos uma parada para pensar e nos dizemos: “Meu Deus! 

Quanto tempo perdido! Quanto sofrimento inútil!”

É aí que começa a subida para a luz. Ela será tanto mais rápida e fácil, mesmo em sua lentidão e dificuldade, quando mãos generosas se estenderem para nos ajudar, acendendo fachos pelos caminhos, sustentando-nos no momento do tropeço, ou fazendo junto ao nosso ouvido a concha amiga para que seja sussurrada uma palavra de encorajamento, de amor fraterno e de solidariedade.

O que importa é isso, não esta ou aquela religião específica. O que importa é a presença de Deus em nós, claro, mas não apenas isso e sim a nossa consciência de tal presença. E isso começamos a perceber, primeiro, no coração de mães generosas, antes de notar que também em nós ele está. Se lá não conseguimos vê-lo, qualquer que seja a razão, podemos estar certos de que ficará mais difícil encontrá-lo em nós mesmos.


Paz a todos...

segunda-feira

Morri! e Agora? 19


Capítulo Dezenove
Depois de muito tempo indaguei: "E agora?"


Vivi encarnado de modo muito errado. Cometi muitos atos ruins. Mas também fiz coisas boas. É difícil uma pessoa ser somente má, como são raros os que são totalmente bons.

Mas as ações más pesam muito mais.

Numa briga de gangues rivais, fui assassinado. Foram dois tiros no peito. Caí.

Perdi a consciência somente por minutos.

Tonteei e, o nada. Fui voltando do que pensei ser um desmaio, e escutei gritos, xingamentos, percebi que ainda havia luta.

Silêncio. Pararam os tiros. Percebi que um dos meus companheiros aproximou-se de mim
e falou:

Vamos embora! A polícia não tarda a vir. Zé, você tem certeza que Janu morreu?

Senti dois deles agacharem-se ao meu lado, olharam meus ferimentos. Zé colocou a mão na frente do meu 
nariz Está morto! Malditos! Eles vão pagar!

Mais blasfêmias. Saíram.

Senti muito ódio, um sentimento tão forte que me fez levantar. Saí em perispírito’4, deixando o corpo físico morto no chão.

Sentia-me ferido, e do meu ferimento saía muito sangue. Ouvi risadas. Vi outras pessoas que não conhecia, julguei serem do outro bando. Um deles falou rindo:

Você está mortinho, boneca!

Fraco, tonto e confuso, ainda assim avancei nele e apertei-lhe o pescoço.

Ei, calma! O chefe nos mandou buscá-lo!

Novo desmaio, mas antes ouvi as sirenes da polícia.

Acordei num quarto pequeno e na penumbra. Olhei tudo, havia somente a cama, onde estava deitado, e uma mesinha. As paredes e a roupa de cama eram de cor cinza. No alto, uma minúscula janela, achei que era de noite porque por ela entrava pouca claridade. Olhei para meu peito, lá estavam os dois furos sangrando, sem curativos e doloridos.

Oi Janu! Você está bem instalado?

Observei a visita, não o conhecia, temi estar prisioneiro, ia responder com xingamentos, mas aquele homem 
alto, magro e bem vestido, não me deu tempo e falou:

Você não está numa prisão, mas sim num bom quarto descansando. Vou ajudá-lo a se lembrar. Trocaram tiros, foi atingido e seu corpo morreu. Sobrevivemos a essa tragédia. Está conosco, com muitos desses sobreviventes, ou seja, desencarnado numa cidade do Além. Logo aprenderá a viver aqui.

Você é o chefe?  indaguei-.

Sou chefe de muitos aqui, mas temos um comandante geral, um sujeito que é maneiro com os fiéis, camarada
com o bando. Vai gostar.

Não vou sarar dos ferimentos?

Você já viu alguém se curar num estalo? Não! Então paciência. Fique aqui deitado, duas escravas o servirão. 

Quer alguma coisa?

Acabar com o bando rival! Sinto ódio deles!

Ótimo! Ódio nos sustenta! Terá tempo para prejudicar seus inimigos!

Duas mulheres me deram tudo o que queria. Os ferimentos doíam muito. Depois de doze dias, aquele homem
que veio me ver, voltou novamente.

Vem comigo, Janu, vou levá-lo à presença do nosso chefe.

Ajudou-me a levantar e me colocou numa cadeira de rodas. Observei tudo curioso.

Saímos da casa e vi uma rua estranha. Muitas pessoas andavam por ali, achei-as esquisitas.

Entramos num prédio luxuoso. Admirei-o, achando muito lindo, era do meu gosto, exagerado, com cores fortes e muita ostentação.

Aqui é a sala de audiência  explicou meu acom panhante.

Ficamos numa fila. Um homem muito bem vestido, calça e camisa combinando, estava sentado numa poltrona confortável e atendia as pessoas. Chegou a minha vez.

Ele me observou e indagou:

Estão lhe tratando bem?

Sim, mas ainda sinto muitas dores nos ferimentos.

Isso é simples de resolver. Pense que quer ficar bom.

Colocou as mãos sobre meus ferimentos e os fechou. Levantei não sentindo mais dores. Meu companheiro sorriu e falou baixinho ao meu ouvido:

Ajoelha e agradeça ao nosso, chefe!

Obrigado, senhor!  falei ajoelhado.

Agora que está bom  disse ele , fará parte da equipe que me serve.

Ká mostrará tudo a você, depois que estiver apto, irá nos servir. Pode ir. O próximo!

Tive vontade de fazer algumas perguntas para entender o que me acontecia. O homem que me levou ali, que agora sabia chamar-se Ká, puxou-me. Saímos da sala de audiência.

Indaguei-o:

Onde estou? Quem é esse chefe? O que irei fazer?

Você está numa cidade organizada pelos que estão fora da lei, não das leis dos homens, mas do Outro, de Deus. Aqui estamos bem instalados num local que se chama umbral, para não dizer inferno. Nosso chefe é um safado, vingador e de muitos conhecimentos. Vou lhe mostrar tudo, e aos poucos irá aprender o que deve ser feito.

Você, quando encarnado, já estava acostumado a viver com privações, em barracos, entre bagunças, malandragens e bandidos, não deverá estranhar.

Ele me curou!  exclamei Poderia ter feito isso assim que você chegou  esclareceu Ká.  Mas preferiu
deixá-lo sofrer um pouco como primeira lição.

Têm conhecimentos aqueles que trabalham e estudam. Muitos acham que somente os bons sabem das coisas. Nós aqui sabemos, só que é mais difícil de se aprender. Gostamos mais de vadiar, farrear e não se encontra fácil quem ensina, Aqui reina o egoísmo. Admiro nosso governador, o chefão, ele é poderoso e não gosta que o desobedeçam.

Estava acostumado a obedecer. Havia tido muitos chefes. Prestei muita atenção no que via para aprender. Ali muitos sofriam, poucos mandavam e a minoria se divertia.

Indaguei Ká:

Por que uns sofrem aqui e outros não?

Não se pode dizer que ninguém sofre nesse lugar. Acho que o mais certo é dizer que uns vivem melhor, outros pior. Você e eu somos ruins e os que mandam aqui, no umbral, admiram os que são maldosos e que ainda não se arrependeram, pois pelo que sei, o remorso vem, para uns mais cedo, para outros mais tarde. 

Eles, os chefes, necessitam de gente assim como nós, para servi-los. Protegem-nos, porém exigem que trabalhemos com fidelidade para eles e para a comunidade.

E por que alguns são maltratados? 

Esses também não foram bonzinhos  Ká me explicou.

Porque se fossem estariam em outros lugares. É merecido o castigo que lhes damos. Alguns não servem para fazer parte da equipe. Não gostam de obedecer e muitos são hipócritas demais. Não se pode confiar. Outros estão sofrendo aqui, porque temos muitas queixas deles. Aqui também fazemos justiça. Tiraram dos pobres ou podendo, não praticaram a caridade.

Justiça?!  exclamei espantado.

Por que não? Se achamos que a pessoa necessita sofrer, fazemos com que sofra.

Não existe Deus para isso?  perguntei.

Ká riu, depois me esclareceu:

Na lei das pessoas boas é um ajudando o outro. Aqui é o contrário, castigamos.

Mas, não se preocupe nem tenha dó. Se não merecessem, não estariam aqui e não conseguiríamos
maltratá-los. Com o tempo você verá que muitos ao se arrependerem, com sinceridade, e querendo melhorar, são levados pelos bons que entram em nossa cidade. No entanto, sofrem porque merecem.

Adaptei-me facilmente. Fazia o meu trabalho da melhor maneira possível. Continuei cometendo maldades a outros desencarnados e encarnados.

Um dia, nosso chefe sumiu, houve muitos comentários: que não fora cauteloso e os desencarnados bons o pegaram, ou fora preso pelos grupos rivais. Falavam até que ele desistira de sua posição porque se cansara. 

Outro passou a ser o chefe. Estávamos sempre brigando entre nós mesmos ou com outros, tinha de estar o tempo todo alerta e nunca confiava em ninguém.

Recebemos em nossa cidade um folheto de outra localidade do umbral, dizendo que precisavam de desencarnados que gostavam e tinham talento para escrever. Interessei-me.

Desde que chegara ali, não escrevera mais. Mas, quando garoto, na escola, fazia boas redações, gostava de escrever cartas e textos. Resolvi ir e me informar direito o que eles queriam. Gostei do lugar e de todos. 

Desejei fazer parte desse grupo e pedi para meu chefe, que autorizou.

O que mais gostei foi que ali, naquela pequena cidade, não fiquei sob domínio de ninguém. Éramos autônomos, denominávamos camaradas, não tinha de obedecer a tantas ordens.

Passei na prova de redação, fui aceito e comecei a estudar. O objetivo era instruir encarnados ou usar da mediunidade deles para narrar o que a organização queria.

Depois de meses estudando juntos, fomos divididos  em três grupos que se especializariam nas atividades d bando.

Na primeira turma ficaram os que iriam instruir ou usar da mediunidade para incentivar a vingança, ódio, brigas e endeusar o sexo.

O segundo grupo se especializaria em desanimar e levar descrença aos que poderiam vir a ser e os que estavam sendo úteis.

Passei a fazer parte do terceiro. Nosso aprendizado era mais sutil, iríamos enganar, iludir para tentar levar divisão e confusão dentro da Doutrina Espírita que era um campo fértil a eles por ter muitos médiuns.

Para fazer isso, tivemos de ler muitos livros espíritas. Compreendi o porquê de os moradores do umbral quererem combater o espiritismo. Os livros narravam o que acontecia com as pessoas que tiveram o corpo físico morto. Era desagradável ler tantas coisas sobre Jesus e sobre o Evangelho.

Mas o estudo era sério, tínhamos de fazê-lo Vocês têm de saber o que eles sabem. Somente se engana com perfeição dominando o assunto  dizia nosso orientador que não gostava que o chamássemos de chefe.

Alguns dos que estudavam conosco sumiram no decorrer do curso.

É o perigo que corremos  esclareceu o orientador.  Por mais que escolhemos nossos trabalhadores, há desertores. Quero pessoas capazes de enganar, odiar e camuflar esse ódio. Quero os fingidos!

Terminamos o curso com a turma bem menor. Mas os que concluíram estavam treinados, com conhecimentos e vontade de atingir os objetivos.

Nosso orientador não forçava ninguém e não se importava com os que deserdavam.

O trabalho é bem-feito quando se faz espontaneamente  dizia ele.

Passamos a observar encarnados que seriam, ou que queríamos que fossem, nossos instrumentos.

Agora vocês escolhem por quem querem se passar. Leiam com atenção tudo o que essa pessoa escreveu, imitem seu estilo, vão para perto dos médiuns psicógrafos e boa sorte!  recomendou nosso orientador.

Todos nós escolhemos nomes importantes e conhecidos. Para enganar melhor, modificávamos até nossos perispíritos. Não tem graça nem como imitar desconhecidos. Nosso grupo adquiriu a forma de pessoas respeitadas e lá fomos nós colocar em prática o que aprendemos. Fomos enganar.

Fui todo entusiasmado. Na primeira tentativa me dei mal. Aproximei-me de um jovem que começava a treinar a psicografia. Ditei a ele uma mensagem bonita, propondo um trabalho diário para escrevermos um livro. Ele duvidou ser o espírito que assinei. O moço deu a mensagem para o pai, que era um espírita estudioso e cauteloso, analisar. Descobriram a fraude e fui repelido. Conforme soube depois, o mentor dele permitiu que eu me aproximasse desse encarnado e ficou feliz com a prudência de seu pupilo. Aquele jovem não seria enganado.

Na segunda tentativa, fui melhor. Aproximei-me de uma médium, fiquei meses observando-a; ela frequentava um centro espírita onde pouco se estudava e achavam que dificilmente seriam enganados. Quando escrevi por intermédio dela e assinei um nome conhecido e respeitado, ela se empolgou, sentiu-se importante, já se via dando autógrafos e todos a respeitando. Mas era uma pessoa preguiçosa, queria tudo pronto, não tinha tempo para se dedicar ao trabalho de psicografia e dava muitas desculpas.

Desisti não tive paciência de enganar essa médium.

Alguns da minha turma estavam se dando bem, outros não. Muitos encarnados não se deixavam enganar, por não serem vaidosos, por analisar e indagar o porquê de um espírito conhecido escrever por ele. Como também davam esses escritos para pessoas que entendiam de literatura, principalmente espírita, analisarem. 

Outros foram enganados para a alegria do nosso orientador, que sabia que esse trabalho daria frutos de separação e discórdia.

Achei interessante visitar uma pessoa que já trabalhava com a psicografia, pelo menos essa não era preguiçosa. 

Aproximei-me, fui tratado com educação, mas não deu para enganar. Ela orava demais, era uma chatice ficar perto dela, suas preces me incomodavam muito.

Vendo que ia fazer um livro com muitos convidados, pedi para escrever. Queria contar aos encarnados que a desencarnação de pessoas más pode ser prazerosa e que viver fazendo o mal tinha vantagens.

A médium me respondeu que quem coordenava seu trabalho era seu mentor desencarnado. Que se quisesse escrever, deveria falar com ele. Ao desejar comunicar-me com ele, vi-o, estava ali o tempo todo. Fiquei nervoso, mas disfarcei, esse espírito aproximou-se de mim e apresentou-se:

“Chamo Antônio Carlos! Que Jesus esteja com você, Januário. Poderá escrever, ou seja, ditar sua história, desde que assine seu nome. Mas, como todos os convidados, você terá de fazer um breve estudo em uma de nossas colônias.”

Ele sabia o meu nome e com certeza sabia muito mais sobre mim. Fiquei de pensar.

E passei dias rodeando a médium. Ela não teve medo, acho que nem se importou. Fiquei curioso para saber como era esse estudo e como seria a colônia deles. Aceitei.

Antônio Carlos me levou à Colônia A Casa do Escritor’5, onde, segundo ele, desencarnados que queriam escrever por médiuns vinham aprender.

Olhei tudo curioso, mas disfarcei fingindo não estar interessado. Achei-a simples, porém encantadora. Impressionei-me com a fraternidade que ali existia e com a forma carinhosa que se tratavam.

Antônio Carlos me deixou numa sala com doze alunos. Todos me cumprimentaram, ninguém me indagou nada e o primeiro encontro transcorreu normalmente. Estava resolvido a enganá-los. O assunto estava interessante, prestei atenção e participei.

Quando a aula terminou, ao sair da sala, encontrei com Antônio Carlos, que estava me esperando e me trouxe de volta. Compreendi que não conseguiria ir a essa colônia sozinho, não a acharia, isso me chateou.

Antônio Carlos todos os dias me esperava num local, levava-me à colônia e me trazia de volta. Nas primeiras aulas, tudo bem, deu para fingir. Mas percebi que já não estava fingindo, estava gostando.

Seriam dez lições. Na sétima, pedi a Antônio Carlos:

Vamos sentar aqui um pouco?

Sentamos num banco do jardim da colônia, ele ficou quieto. Comecei a chorar, nunca havia chorado daquele tão sentido e dolorido.

Sofria. Ele esperou que chorasse, o que fiz por minutos, depois me olhou com carinho. Foi etão que temi e
indaguei-o apreensivo:

E agora?

Caminhe! Mude o rumo de sua vida  respondeu ele bondosamente.

Fiz muito mal. Como será minha colheita?

Quando nos preparamos para a colheita, sabemos que irá ser trabalhosa, O trabalho no bem facilita.
Terei muito o que fazer!  exclamei em tom de queixa.

Chorei de novo.

Januário  disse Antônio Carlos carinhoso , se você tem de caminhar duzentos quilômetros e ficar sentado chorando, pensando no tanto que andará, terá sempre esses quilômetros pela frente. Mas se der passo por passo, um dia terá percorrido toda a quilometragem. E você já andou alguns metros.

Compreendi. Pedi abrigo, ajuda aos orientadores do curso. Aconselharam-me a terminar o estudo e vir, como havia prometido, escrever minha história ou parte dela.

Antônio Carlos, meu novo e sincero amigo, levou-me a uma outra colônia, onde existe uma escola especial para desencarnados que foram imprudentes a ponto de serem tachados por eles mesmos de trevosos. Ali eram educados, recebendo a orientação de que necessitavam. Gostei demais do que vi, de todos, e quis com sinceridade frequentá-la.

Escrevo hoje, no dia em que se comemora um feriado na cidade que a médium mora, a Nossa Senhora, Maria, mãe de Jesus. Orei muito para ela me dar forças e conseguir mudar minha forma de pensar e de viver. 

Sei que terei de me esforçar para me modificar.

E foi depois de muito tempo de desencarnado que, angustiado e temeroso, indaguei: “E agora, que faço?”.

Ainda bem que recebi ajuda. Entendo que ninguém é perfeito e que o importante é cobrarmos de nós mesmos o que podemos fazer, e não observar o que o próximo faz.

Quando me aproximei pela primeira vez da médium, queria escrever uma coisa, acabei escrevendo outra, pois compreendi que não estava bem como julgava. Ninguém é feliz não se sentindo bem com as Leis Divinas, afastado de Deus.

Não queria continuar fazendo o mal, e decidi parar com a plantação da maldade e me preparar para a colheita. Quero e desejo fazer essa colheita com trabalho. Agradeço a oportunidade que estou tendo. Fiz muito mais mal a mim mesmo do que aos outros.

    Januário

Explicações de Antonio Carlos

Januário teve uma desencarnação violenta, sentia ódio do inimigo e lutava com rancor. Esse sentimento forte, o ódio, fez num impulso, seu espírito sair do corpo físico morto. Desencarnados que vibravam igual a ele, desligaram-no levando-o para uma cidade do umbral. Se ele não tivesse se enturmado e ficado submisso, teria sido preso ou se tornado um escravo.

A desencarnação para Januário, de imediato, não mudou muito sua forma de viver e agir.

No umbral, os chefes que lá moram, costumam agir de forma que seus companheiros sofram, para depois
ajudá-los. Isso tudo para que tenham medo e sejam obedientes.

Muitos livros espíritas têm descrito as cidades do plano espiritual. Bonitas e agradáveis são as moradas dos bons espíritos ou daqueles que querem melhorar. Confusas, barulhentas e não tão bonitas são as moradas dos que preferem trilhar o caminho da maldade. Lá também vivem os imprudentes, que são maltratados, normalmente os que fizeram vítimas e essas não lhes perdoaram.

Os que se denominam moradores, fingem estarem bem e são alegres. Há os que mandam, e a maioria tem de obedecer às leis, que normalmente são cruéis.

Nessas cidades vemos muitas coisas estranhas, que não diferem muito de certos lugares da Terra, onde encarnados vão para usufruir paixões e vícios. Nós os vemos vestidos de muitos modos. Há os que se vestem acompanhando a moda dos encarnados.

Januário, na primeira vez que veio nos visitar, estava todo de branco, talvez por tentar se passar por outra pessoa. Depois veio vestido de preto. Acabou por último vestindo-se de roupas claras e simples.

Somente alguns se vestem de forma muito estranha e os motivos são quase sempre tentar assustar ou amedrontar quem os vê.

Januário viveu muitos anos no umbral. Pedi a ele que não escrevesse o que fez.

Errou muito.

Convidei-o a fazer o curso. Queria que ele conhecesse outra forma de estudar a literatura e que conhecesse desencarnados bons.

Deu resultado. Todos, professores e alunos, sabiam o porquê de ele estar ali e ajudaram-no.

Somente se indagou: “E agora?”, quando teve consciência de seus erros. Ele soube, pelo estudo na Colônia A Casa do Escritor, que nossos atos nos pertencem. Somos donos absolutos do que fazemos. Ficar inerte e chorar pelo que se fez de errado não resolve, necessita-se caminhar e ser útil. É o que ele vai tentar fazer. Em muitas colônias existem escolas que orientam desencarnados que muito erraram. Lá, eles estudam por um tempo. Depois de concluírem o curso, há várias opções: continuar a estudar em outras colônias, reencarnar, ou servir em muitos locais.

Desde que esse desencarnado, que se denomina orientador, fundou no umbral uma escola para literatos, nós da Colônia A Casa do Escritor sabemos e os temos acompanhado de perto. Temos nosso livre-arbítrio, eles também.

Esse orientador, espírito talentoso na arte literária, sente muito ódio por tudo o que melhora o indivíduo e principalmente pela Doutrina Espírita. Acha ele, como muitos outros perseguidores, que não adianta combater os bons. Segundo eles, quanto mais as pessoas sofrem pressões, mais se fortalecem. Acham, então, que devem incentivar indivíduos sem preparo, médiuns vaidosos, a escreverem para que façam livros sem treino, estudo e preparo. Pensam que se criticarem, gerando discórdia e rancor, criarão desunião, e tudo o que se separa, divide, enfraquece-se e acaba.

Vou dar um exemplo referindo-me a mim. Eu, Antônio Carlos, era desconhecido no meio espírita, atualmente
algumas pessoas sabem quem sou pelos livros que escrevo.

Vera Lúcia, a médium e eu, temos uma história de vivência juntos, onde erramos, e agora queremos reparar esses erros. Organizamo-nos para fazer um trabalho. Temos um motivo forte para termos treinado juntos durante nove anos até o primeiro livro ser editado. Não sou uma máquina de fazer livros. Preciso sentir o que escrevo, fazer e refazer histórias no plano espiritual para depois ditar a ela outras vezes. Não escrevo por mais ninguém nem tenho planos de fazê-lo. Todo trabalho que se inicia tem continuidade, termina, e esse nosso, terá fim. E pelo meu aprendizado, irei com certeza fazer outro. Certamente isso se dará quando a médium desencarnar.

Mas, se fosse para escrever com outro encarnado, não usaria o nome de Antônio Carlos. Teria caridade com o médium que certamente receberia críticas e muitas indagações:

“Será ele? De fato é ou não Antônio Carlos? Esse médium mistifica? Quer aparecer? Por que escreve por alguém já conhecido?

Pegou o bonde andando! Etc., etc., etc.”

Temos, nos ensinos de Jesus, as setas para nossa caminhada, nas orientações dos livros de Allan Kardec diretrizes seguras para quem deseja fazer um bom trabalho com a mediunidade.

Como Januário narrou, ele tentou enganar primeiro um jovem que desconfiou de um nome importante dentro da Doutrina Espírita e agiu certo pedindo opiniões.

Mas, não é somente de nomes importantes que temos de nos acautelar, é também de histórias confusas, exageradas, com mensagens distorcidas e também quando o desencarnado escreve criticando o médium com quem trabalhou ou trabalha há tempos. Dizendo que ele é isso ou aquilo, que quer escrever com alguém com mais instrução, com vocabulário mais rico etc.

Sem treino, estudo, prudência e humildade da parte do encarnado, fica fácil enganar.

Felizmente, há dentro da Doutrina Espírita encarnados sérios, estudiosos, perseverantes, trabalhadores que a sustentam, fazendo um bom trabalho.

Sugiro cautela e prudência para você que recebe mensagens pela psicografia. Não tenha pressa em editar o trabalho. As árvores, para darem frutos, necessitam de tempo para crescer, fortalecer, dar flores e finalmente os frutos. A boa árvore somente dá bons frutos.

Estude com toda atenção os livros de Allan Kardec, principalmente O Livro dos Médiuns. Recomendo também o livro No invisível, de Léon Denis’6. Transcreveremos aqui alguns trechos por acharmos de grande importância:

“Nada verdadeiramente importante se adquire sem trabalho. Uma lenta e laboriosa iniciação se impõe aos que buscam os bens superiores. Como todas as coisas, a formação e o exercício da mediunidade encontram dificuldades, bastantes vezes já assinaladas; DENIS, Léon. No Invisível. capítulo V “Educação e função dos médiuns”. Rio de Janeiro: FEB (Nota da Médium).convém insistirmos nisso, a fim de prevenir os médiuns contra as falsas interpretações, contra as causas de erro e de desânimo.

Uma multidão de espíritos nos cerca, sempre ávidos de se comunicar com os homens. Essa multidão é sobretudo composta de almas pouco adiantadas, de espíritos levianos, algumas vezes maus, que a densidade de seus próprios fluidos conserva-os presos à Terra.

O médium inexperto recebe ditados subscritos por nomes célebres, contendo revelações apócrifas que lhe captam a confiança e o enche de entusiasmo. O inspirador invisível conhece-lhe os lados vulneráveis, lisonjeia-lhe o amor próprio e as opiniões, superexcita-lhe a vaidade, cumulando-o de elogios e prometendo-lhe maravilhas. Pouco a pouco vai desviando de qualquer outra influência, de todo exame esclarecido e
o leva a se insular em seus trabalhos. É o começo de uma obsessão, de um domínio exclusivista, que pode conduzir o médium a deploráveis resultados.

Esses perigos foram, desde os primórdios do espiritismo, assinalados por Allan Kardec; todos os dias, estamos vendo médiuns deixarem-se levar pelas sugestões de espíritos embusteiros e serem vítimas de mistificações que os tornam ridículos e vêm a recair sobre a causa que eles julgam servir.

A boa mediunidade se forma lentamente, no estudo calmo, silencioso, recolhido, longe dos prazeres mundanos e dos tumultos das paixões.”


Você, caro leitor amigo, espero que medite sobre as histórias verdadeiras que leu, que possa ter uma mudança de plano tranquila, e não se apavore ao se defrontar com a desencarnação. Que a resposta à indagação: “E agora?”, traga-lhe paz. E que tenha o merecimento de estar entre os bem-aventurados, os que escolheram o caminho estreito, mas que o levará a uma sobrevivência harmoniosa.

E tenha sempre em mente: somente você pode desfazer o que fez de errado e fazer o bem que ainda não fez,
e isso deve ser feito no presente, neste momento. Que Deus o abençoe!

Ao terminar a leitura deste livro, provavelmente você tenha ficado com algumas dúvidas e perguntas a fazer, o que é um bom sinal. Sinal de que está em busca de explicações para a vida. Todas as respostas que você precisa estão nas Obras Básicas de Allan Kardec.

Se você gostou deste livro, o que acha de fazer com que outras pessoas venham a conhecê-lo também? Poderia comentá-lo com aquelas do seu relacionamento, dar de presente a alguém que talvez esteja precisando ou até mesmo emprestar àquele que não tem condições de comprá-lo, O importante é a
divulgação da boa leitura, principalmente a literatura espírita. Entre nessa corrente!

14  Perispírito: substância vaporosa semimaterial, que serve de envoltório ao espírito e liga a alma ao corpo. Nos encarnados, é o intermediário entre o espírito e a matéria. Nos espíritos libertos do corpo físico, constitui o seu corpo fluídico N.E.

15 • Caso o leitor amigo queira saber mais sobre essas colônias de estudo, leia o livro: A Casa do Escritor, escrito por Patrícia. São Paulo: Petit Editora
(N.A.E.).



FIM

Filho Adotivo IV

IV
OFÉLIA, FELIZ

A casa, escura e silenciosa, demonstrava que todos os seus moradores dormiam.

Entramos. Fomos ao quarto de Ofélia que ainda se achava acordada, orava com fé, seus dedos deslizavam no seu já gasto rosário, esperando adormecer para o devido descanso físico.

— Ofélia, dorme pouco, explicou-me Antônia.

Acerquei-me dela, dei-lhe um passe calmante que foi bem recebido, logo adormeceu. Seu Espírito desligou parcialmente do corpo, levantou-se devagar e seguiu para a sala de estar, acompanhamo-la.

— Ofélia! - disse delicadamente Antônia.

Ela virou-se, olhou-nos analisando-nos:

— Quem está aí? Como entraram em minha casa?

— Somos amigos, continuou calmamente Antônia, viemos conversar com você. Ofélia sentou-se no sofá, sentamos também, olhou-nos desconfiada, Antônia continuou a falar!

— Ofélia, minha querida, é minha benfeitora, sempre tão bondosa. Recebeu a carta de suas irmãs, não seja injusta com Rosa ela nunca a traiu, não é ela o que pensa e...

— Quem me fala assim? Quem é você?

— Ofélia, continuou minha amiga, procure saber onde Rosa esteve nos meses de abril a julho. Procure! Rosa é inocente!

— Por que me diz isto? Como sabe? Não a conheço.

— Sabemos que Caio é adotivo, mas não é filho de sua irmã Rosa. Sou eu a mãe dele, Caio é meu filho.

Ao ouvir Antônia pronunciar o nome de Caio,Ofélia agitou-se, tinha medo da verdade, não queria encontrar com a mãe de Caio, não queria perdê-lo como filho nem repartir seu amor. Quando Antônia disse: “meu filho” ela levantouse rápido. Seu corpo era inválido, mas não seu perispirito liberto do corpo pelo sono. Nem sempre este fato ocorre.

Há defeitos corporais acompanhados pelo perispirito também defeituoso, por falta de compreensão e resignação.

Muitos deficientes, libertos pelo Sono, continuam deficientes e muitos continuam até mesmo após libertos pela morte física.

Ofélia olhou bem para Antônia e disse com firmeza!

— Mãe dele? Nunca! Mãe sou eu que o criou que cuido dele! Que veio fazer aqui após tanto tempo? Mãe dele? Não creio. Veio tomá-lo de mim? Não quero que fique aqui, vá, por favor, embora. Caio é meu!

— Concordo, respondeu Antônia, Caio é seu. Quem mais teria direito a ele que você? Ele é seu! Não quero tomá-lo.

Sou grata a você por amá-lo e por ter cuidado dele. Digolhe que sou a mãe dele, gerei-o, e não Rosa. Quero impedir que você, minha benfeitora, cometa uma injustiça com sua irmã. Sou a mãe carnal dele.

Ofélia fez um gesto de quem não queria escutar mais, sentiu medo e voltou rápido ao corpo e Antônia repetiu-lhe mais uma vez:

— Rosa é inocente!

Ficamos na sala e veio ter conosco, logo em seguida, Caio desligado do corpo pelo sono, andava distraído. Viu-nos, parou e olhou-nos desconfiado e indagou:

— Quem são vocês? Que fazem aqui em minha casa?

— Amigos, respondi, viemos para conversar, quer, por favor, dar-nos atenção por alguns instantes?

— Hum... Não os conheço.

Antônia aproximou-se dele, emocionada:

— Caio meu filho! Como você é bonito! Lindo! Você é feliz?

— Sim, sou muito feliz, sorriu só que não estou entendendo. Que papo estranho!

— Amo você! Sou sua mãe e de Cidinha também. São irmãos e não devem se casar. Sou sua mãe...

Antônia abriu os braços e tentou abraçar o filho, este se afastou, riu alto, balançou a cabeça e saiu da sala.

— Cada uma! - exclamou.

Antônia olhou-me, triste.

— Desculpa-me, Antônio Carlos, acho que me precipitei.

Pensei que ele se atiraria nos meus braços ao saber que era sua mãe. Tive esperança de que me aceitaria. Não acreditou, não sabe e até achou graça.

Antônia Caio não sabe que é adotivo, acredita realmente que é filho de Ofélia, Sente-se filho dela. Temos conosco, Antônia, a idéia de que se sabe tudo, quando desligado do corpo físico, e que se tem muitos conhecimentos quando o corpo dorme e semiliberto conhece as circunstâncias em que está envolvido e porquê de estar sofrendo. Assim é, para os espíritos mais esclarecidos e compreensivos, estes têm conhecimentos que o cérebro físico desconhece.

Recordam o passado. Os maduros por si mesmo o fazem, com o conheci - mento mais amplo, tudo lhes é visto,sentido com clareza.

Para a maioria não é assim, o esquecimento do passado também para seu perispirito que quase sempre tem os mesmos conhecimentos do corpo. Pela bondade de Deus, ao encarnar, esquecemos o passado para um recomeço,mesmo desligado pelo sono ou pelo desencarne, o perispirito continua sem lembrar e, para fazê-lo, necessita de uma ajuda especializada.

— É verdade, Antônio Carlos, já faz tempo que desencarnei e não lembrei meu passado. Sei que vivi muitas existências, mas não as recordo. Também, ao ter o corpo morto, nem soube, agi como se estivesse encarnada.

— Isto é comum. Tanto que ateus, são ateus libertos pelo sono e desencarnados, até que lhes provêm o contrário. Que lhes mostrem que continuam vivos após a morte do corpo.

Para muitos que não estão preparados, recordar a vivência de outras existências seria adoecer espiritual e fisicamente.

Tantas doenças mentais, que levam tantas pessoas a sanatórios, são recordações forçadas por obsessores vingativos ou recordações prematuras que desequilibram o cérebro físico, passando o enfermo a viver presente e o passado. Para muitos, recordar o passado reencarnatório,seria absorver alimentos sólidos em tenra idade... E mesmo de muitos acontecimentos que envolvem a atual encarnação, pode-se não ter conhecimento, como no caso de Caio. Sem ninguém contar ele não pode adivinhar e ignora. Isto pode ocorrer até após o desencarne, se não procurar saber.

— Caio não sabe!

— Não, ele não sabe. Caio é feliz, amado, nunca foi discriminado. Talvez, se fosse, se sofresse, iria querer saber a causa. Como não há o porquê de Caio duvidar, adoção nunca lhe passou pela mente, ele ama aos seus e é amado.

Ao ouvi-la, achou graça como se ouvisse uma piada.

Precipitou-se, amiga, ao dizer que era sua mãe.

— E agora?

— Não se aflija, aguardaremos amanhã. Talvez Caio não recorde de nada, se o fizer, pensará que teve um sonho engraçado.

Pela manhã, ao fazerem o desjejum, Caio disse rindo:

— Que sonho engraçado tive esta noite! Sonhei com um estranho casal, vestidos corno antigamente. A mulher quis abraçar-me e disse para que não me casasse com Cidinha porque ela era minha irmã.

Acabou a narrativa com uma gargalhada e foi imitado por todos. Ofélia forçou o riso, sentiu algo estranho, vagas recordações de nossa conversa, tentou lembrar de seu sonho que parecia igual ao de Caio.

Logo, todos saíram apressados, ela ficou sozinha,empurrou a cadeira para a sala de estar.

— Que sonho estranho esse de Caio. Parece que sonheicom o mesmo casal! Esforçou-se por recordar. Disseram alguma coisa. Que será? Ah, sim! Era sobre Rosa.

Pôs-se a orar, a resignação e a grande fé de Ofélia enchiam a sala de bons fluidos. Antônia aproximou-se dela e Ofélia pôs-se em guarda, desconcentrando-se.

— Deixe-a, Antônia, seu Espírito sente as inquietações de mãe, eu falo com ela. Aproximei, trocamos fluidos de simpatia, disse-lhe docemente.

— Irmã querida, não seja injusta com suas irmãs de carne. Reconcilie com elas, agora que tem oportunidade.

Por que você não indaga para esclarecer suas dúvidas? Por que não procura saber onde Rosa esteve nestes meses que nem aqui esteve nem com Zélia?

— Tenho medo, responde-me em pensamento, medo...

Não, filha, não receie, continuei, lembra-se de Rosa?

Sempre meiga e bondosa. Quando Paulo a escolheu, não a ofendeu , não lhe disse nada de desagradável.

— É verdade, não comentou nada comigo.

— Rosa é boa irmã, foi ótima filha, cuidou do pai com tanto carinho e sacrifício. Pense Ofélia, seria Rosa capaz de uma infame traição? Se tivesse errado por amor, teria coragem de abandonar o filho? Crê realmente que teria?

Rosa não abandonaria um filho, ela é forte, maternal e corajosa. Por que ela o faria? Ela não fez. Rosa não abandonou ninguém. Esclareça este assunto. Pergunte!

Vamos, coragem! Não continue nesta incerteza. Pergunte...

Minha voz era recebida por Ofélia como uma intuição.

— Telefone, continuei telefone, fale com uma delas, procure saber de tudo, antes de tomar uma resolução.

— Vou telefonar! Disse Ofélia alto.

Rumou rápido com a cadeira de rodas para seu quarto, tirou de uma gaveta um caderninho de anotações.

— Aqui está o número do telefone da vizinha delas. Será que devo? Jesus ajuda-me, que devo fazer?

— Telefone, Ofélia! - insisti. Telefone!

Ofélia, trêmula pegou o telefone, discou, esperou ansiosa. Logo uma voz desconhecida se fez ouvir.

Ofélia cumprimentou a senhora que atendeu, explicou quem era e pediu para que lhe chamasse Zélia.

Enquanto esperava, Ofélia lembrou que há muito tempo as irmãs mandaram o telefone da vizinha por carta, para que ela telefonasse em caso de necessidade.

— Ofélia! E você? Falou do outro lado uma voz ofegante, demonstrando que viera correndo.

— Zélia? Como está?

— Bem, estamos bem. E você? E todos aí?

— Estamos bem, Zélia, não se afobe, telefonei só porque estou com saudade e com vontade de saber de vocês.

— Oh! Ainda bem! Nunca telefonou, assustei. Recebeu nossa carta?

— Não, não recebi...

Calaram por uns instantes, Ofélia perdia a coragem de indagar, voltei a incentivá-la.

— Vamos, filha, pergunte, acabe com este martírio.

Pergunte!

— Zélia, estava pensando. Logo após papai ter falecido,Rosa foi morar com você. Saiu ela daqui no mês de abril e só foi ter ai no mês de julho, onde ela passou estes meses?

— Ofélia, parece saudosa mesmo. Por que lembrar disto agora? Faz tanto tempo! Mas, não é segredo, meu bem.

Você realmente não sabe?

— Não, envergonhada pelo tom de censura da irmã,disse baixinho. Não sei.

— Papai contraiu tuberculose nos últimos meses de vida.

Rosa cuidou dele, ficando também doente. Fraca, cansada com tantos trabalhos e preocupações, adoeceu necessitando de hospitalização. No hospital daí tiveram pena dela e arrumaram para que se tratasse em Campos do Jordão. Rosa ficou lá estes meses, na enfermaria, e quando recebeu alta veio para cá e por meses ainda continuou com o tratamento.

— Ela não me disse nada! - não conteve o susto.

— Acho que não queria atrapalhá-la ou preocupá-la, sabe como é nossa Rosa.

Ofélia tremia, lágrimas começaram a correr pelas faces pálidas.

— Onde está Rosa agora?

— Trabalhando de faxineira.

— Mando um abraço apertado a ela e Outro a você.

Liguei só para saber de vocês. Respondo logo a carta.

Tchau.
— Tchau, abraços a todos.

Ofélia desligou o telefone e chorou sentida.

— Esperemos Antônia, disse. Deixemos nossa Ofélia desabafar.

— Ela sofre.

— Também se sente aliviada e poderá reparar a indiferença com que tratava as irmãs. Ofélia chorou por uns quinze minutos, sentindo-se melhor, orou novamente, sua oração comoveu-nos.

“Obrigado, Jesus, obrigado meu Mestre e Amigo, por ter me inspirado. Senti tanta vontade de falar com elas, uma necessidade de perguntar... Sei que foi o Senhor quem me ajudou. As forças divinas guiaram-me. Perdoa-me, meu Deus, perdoa-me Pai. Como fui injusta, como fui!”

Ofélia estava aliviada, sorriu, falou baixinho:

“Ai, que bom! Como estou contente! Rosa não é mãe de Caio. Que idiota tenho sido! Rosa nunca abandonaria um filho se o tivesse tido. É minha irmã, pessoa de fibra.

Nem se fosse para passar fome, não abandonaria um filho. Ela é inocente! Paulo também! Tudo foi coincidência. Caio foi realmente abandonado na nossa porta. A única culpada fui eu. Pensei mal do meu esposo e de minha irmã! De minha irmã bondosa a quem deveria abençoar sempre.

Doente meses por ter cuidado do nosso pai! Que vergonha sinto agora. Não vou contar a ninguém, não contei antes, não falarei agora. Sofri anos por uma mentira, mentira que erradamente deduzi, sem tentar saber a verdade. Como errei! Se tivesse ao duvidar, indagado, não teria sido tão injusta. Deduzi errado, sofri e fiz sofrer.”

Pegou a carta e a beijou.

“Ficaremos unidas, farei de meu lar o lar para elas. E você, Rosa, querida, não fará mais faxinas.”

Seu semblante mudou, as faces coraram mais, alegre foi para sua varanda e pôs-se a fazer planos.

“Mandarei a elas dinheiro, quero que venham de avião. Acomoda-las-ei no apartamento de hóspedes, tem ele duas camas e banheiro, quero fazer tudo para agradá-las e pedirei que morem aqui para sempre.”

Esperou ansiosa que todos chegassem, na hora do almoço, com todos sentados à mesa, Ofélia disse contente:

Recebi uma carta de minhas irmãs contando que, após a morte de Odair, estão passando por sérias dificuldades e pedem-me para ajudá-las, desejam voltar para cá. Acho que elas poderiam morar conosco. Quero a opinião de vocês.

Que acha Paulo?

Este é o motivo de tanto contentamento? Notícias das irmãs. Ofélia o que decidir está bom para mim. Conte comigo para o que quiser.

— Vivemos tão separadas, tão longe. O serviço de Odair fazia com que ficassem lá, mas, agora; depois não estão bem. Obrigado, Paulo. Sempre tão bom comigo! Você é um
bom marido.

Pegou a mão dele, olhando-o com carinho, falou com emoção, lembrando que tinha sido injusta com ele por tantos anos. Os adolescentes, não acostumados com cenas de carinho entre os pais, começaram a rir. Ofélia retirou a mão envergonhada.

— E vocês, o que me dizem?

— Alegro-me, disse Carla, gosto muito delas. Quando fui lá, trataram-me tão bem! Depois elas farão companhia à senhora, que não ficará mais tão sozinha.

— Concordo, pronunciou Caio, sou o único que não as conheço. Temos uma família bem pequena, nem avós, nem primos, só duas tias.

— Acho uma boa! - exclama rindo Sérgio, gosto delas,sabendo que vão estar aqui, quando nos ausentarmos, é uma tranqüilidade. É bem melhor para a senhora, mamãe, ficar com suas irmãs do que só com empregados.

— Está decidido, pedirei para que venham, entusiasmou Ofélia, hoje mesmo, tomarei as providências.

— Posso ajudá-la, mamãe? - indagou Caio.

— Sim, quero que passe uma ordem de pagamento a elas para que liquidem seus débitos e comprem passagens de avião.

— Faço isto agora, antes de ir para o escritório.Ofélia sorria feliz, estava tão contente, que todos se sentiram bem e felizes.

Todos saíram e Caio levou uma boa quantia para depositar em nome das tias. Ofélia foi ao escritório e pôs-se a escrever para as irmãs:

“Minhas queridas Zélia e Rosa”:

Devo-lhes desculpas, por ser tão relapsa e não ter entendido que poderiam estar passando por necessidades. Acho-me realmente em condições de ajudá-las. Estarão fazendo-me um favor, tê-las por companhia. Confesso que sempre acalentei a esperança de tê-las conosco, porém, por burrice, sim, burrice, pensei que quisessem permanecer ai.

Estou tão agradecida e feliz por quererem voltar para cá e por terem pensado em mim. Minha casa, nossa casa, é de vocês, não queremos que seja por pouco tempo, quero-as aqui em definitivo. Estamos há tanto separadas...

As crianças muito se alegraram com a notícia de suas vindas. Conhecerão Caio e verão que filho maravilhoso ele é.

Mando-lhes o dinheiro...

Venham o mais rápido possível, estou ansiosa por tê-las conosco e por abraçá-las. Suas acomodações já estão preparadas e todos a esperá-las.

“Beijos, de sua irmã Ofélia.”

“Talvez estranhem, pensou, nunca escrevi a elas assim.

Que importa! Pela primeira vez escrevo de coração e espero que sintam a minha sinceridade.”

Tocou um sininho, logo uma empregada, moça simpática, veio até ela.

— Magda, por favor, largue o que está fazendo e vá colocar esta carta no Correio para mim. Cuidado, é importante! É para minhas irmãs, depois chame Marta, quero fazer umas modificações e arrumações no quarto de hóspedes para recebê-las.

A moça sorriu, admirando a alegria da patroa, correu a obedecer à ordem.

— Graças! - exclamou Antônia, — Ofélia está feliz.

— Ela se sente reconciliada com as irmãs, de quem ela mesma se distanciou. Agindo com justiça, sente-se tranqüila. Tê-las aqui, será muito bom para ela. Ofélia tem o hábito de orar e o faz com fé e o Senhor realiza qualquer desejo sincero de um devoto. Ele presta atenção às preces, atende a cada um que Dele se aproxime com confiança.

Nós, Antônia, deveríamos sempre ter fé na amorosa bondade de Deus. Resolvemos, amiga, uma questão, mas o problema continua inteiro. Ofélia não poderá nos ajudar mais. Estudaremos os passos a seguir. Aguardemos a noite e conhecerei Cidinha e família.


 Médium: Vera Lúcia M. Carvalho
Espírito: Antônio Carlos

Deus proteja a todos...

abçs,