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terça-feira

Alvíssaras de Alegrias

Os costumes promíscuos, frutos das guerras e dos ódios incessantes, geraram o desvario das massas.

Sem qualquer apoio ou perspectiva de melhorias, o povo consumido pelo desespero estava mergulhado na treva e não mais vivia, apenas sobrevivendo cada dia, cada hora, sem projeto algum para o futuro.

De um lado, a falsa religiosidade, preocupada mais com a aparência do que com o profundo conteúdo espiritual, caracterizava-se pelo formalismo pusilânime, enquanto as necessidades asfixiantes do povo armavam-no de ódio e de ferocidade.

Os infelizes cansados das injustiças, que já haviam criado no passado o partido dos zelotes, daqueles que buscavam preservar os códigos ancestrais, violentados pelos romanos, agora abriam uma ala para os que desejavam desforço, cometendo hediondos crimes, mesmo à luz do dia, contra os seus contemporâneos infiéis...

Israel encontrava-se desestruturado, contorcendo-se entre as garras férreas da águia romana, da sordidez dos seus governantes ignóbeis e da indiferença dos poderosos que adquiriam direito à comodidade a peso de ouro.

As pessoas, antes sonhadoras e gentis, que aguardavam o Messias, transformaram-se na multidão aturdida e desenfreada nas suas paixões, que se atiravam sobre o espólio das gerações vencidas.

Apesar de tudo, pairava uma psicosfera de ternura como ligeira brisa que carreasse aromas suaves e leve expectativa de alegria no ar.

Sem saberem compreender o que sucedia, muitos infelizes ainda confiavam em Deus e humildes trabalhadores honravam os seus deveres.

Ocorre que a Terra estava sob tênues claridades do Céu que anunciavam a eliminação das sombras.

Sempre surgiam sonhadores que afirmavam a chegada do justiceiro e se armavam, sendo logo vencidos, dizimados, sem qualquer compaixão, pelos dominadores.

Naqueles dias, subitamente as aragens da esperança começaram a cantar nos corações expectantes.

Ninguém sabia exatamente o que estava acontecendo. No entanto, desde o momento quando o Batista anunciou que aquela era a hora do arrependimento e da renovação, algo realmente começou a suceder.

Desde as terras de Betfagé, às margens frescas do Jordão, e dali à aridez do deserto e ao mar Morto, visitando as pradarias e ultrapassando as montanhas, alguma ocorrência especial alterava a paisagem humana...

Roma estava acostumada àquele povo tumultuado e rebelde, teimoso e bulhento, silenciando as suas contínuas revoltas com banhos de sangue...

Ele era simples e puro como o lírio do campo e despido de atavios como uma espada nua.

Quem O tivesse visto e ouvido não conseguiria ser mais o mesmo, nem olvidar aquele momento, aguardando os longes tempos para O entender e O seguir, caso não dispusesse de resistências morais para fazê-lo a partir daquele instante.

A Sua palavra penetrava o cerne do ser como o perfume do nardo que impregna a superfície que acaricia.

Era natural que, onde aparecesse, a patética do sofrimento também se apresentasse.

Sucediam-se como ondas eriçadas pelo vento, as multidões que desejavam o seu contato, o seu benefício, a dúlcida carícia do seu terno olhar, que diminuía o fogo das aflições.

Preocupados com o corpo, nem sempre O ouviam realmente, anelando apenas por escutar a interrogação: - Que queres que eu te faça?

Ele não viera exatamente para ser remendão de corpos despedaçados, mas fazia-se necessário que O vissem agir em nome de Deus, que recuperasse aquelas formas orgânicas que iriam perecer depois, a fim de que tivessem despertada a fé na imortalidade.

Bem poucos desejavam realmente receber o pão da vida e a água que dessedenta para sempre, embriagando-se na perene luz do conhecimento que é o suporte vigoroso para a fé inabalável.

Mas a Sua fama crescia na razão direta dos Seus feitos, da Sua incomparável bondade, da Sua compaixão.

Ninguém jamais amara daquela maneira, falara com aquele tom de voz, convivera com os deserdados do mundo com a mesma naturalidade...

Os fariseus souberam que Ele silenciara os saduceus e, tomados de cólera, que é o recurso dos pigmeus morais diante dos gigantes espirituais, buscaram-nO, e um sacerdote pusilânime, para O tentar, perguntou-lhe:

- Qual o mandamento maior, aquele que devemos seguir?

A luz penetrante dos Seus olhos desnudou o hipócrita, enquanto docemente respondeu:

- Amarás o Senhor teu Deus de todo o coração, de toda a tua alma, acima de todas as coisas.

O atormentado fariseu de sentimentos corroídos pela inveja redarguiu:

-Isto sabemos nós. Como porém, amar ao que não se vê, não se compreende, não se sente?

Num relampaguear de emoção, Ele aduziu:

- Amando ao próximo como a si mesmo, assim sintetizando toda a Lei e todos os profetas.

O soez inquiridor, porém, não queria a verdade, mas a discussão inútil com o sarcasmo no qual era mestre.

Voltou, então, a interrogar:

- Que é amar ao próximo? Como fazê-lo, sendo ele um estranho?

Houve um silêncio profundo, prenunciador da sinfonia da gentileza:

- O próximo – esclareceu com ternura – são todos os seres humanos, filhos do Único Pai, sem distinção de classe ou de cor, de credo ou de raça.

- Ante a impossibilidade de amar-se ao Pai, que transcende a qualquer entendimento, respeitar-lhe os filhos que lhe conduzem a herança e caminham ao nosso lado.

Amá-lo, implica em considerá-lo irmão, compreendendo-lhe as necessidades e buscando supri-las, dispensando-lhe carinho e tolerância e fazendo-lhe tudo quanto gostaria de receber de outrem.

Quando o amor se exterioriza do coração, o Pai alberga ambos, aquele que ama e aqueloutro que lhe frui o afeto, na sua incomparável alegria.

O amor ergue, quando o outro tomba, compadece-se, quando defronta o erro, acompanha o solitário, ajudando-o, e enriquece de ternura todos aqueles que abraça, por maior que seja ao carência que os devasta.

No amor ao próximo, que é o eu no outro, a vida estua e a paz repousa no coração.

Não é necessário ver para amar, bastando compreender que ninguém jamais se realiza a sós, nem se completa se não der um sentido de solidariedade à existência...

Doces melodias e vozes inarticuladas cantavam na pauta grandiosa da Natureza.

Logo após, completou:

-Então, não existirão inimigos, porque todos aqueles que se prazer'>comprazerem nessa infeliz condição serão também amados.

As alvíssaras de luz e alegrias do Reino dos Céus rompiam a noite dos tempos de então para todos os tempos do futuro.
Amélia Rodrigues Espírito
Médium Chico Xavier

sábado

Poema da Gratidão


Muita paz!

A Eterna Primavera Porvindoura


Cada quadra do tempo caracteriza-se por expressões inconfundíveis da própria Natureza
Sucede uma à outra, suavemente, e atinge o seu clímax, numa plenitude de força e domínio de realização. 

Nesta, caem as folhas, esmaece a vida, desnuda-se a paisagem; nestoutra, o frio enregela, as cores alvejam e há tristeza assinalando dores e sombras de noites demoradas. . .
  
Depois, os rios voltam a correr, exulta o verde, a terra se enriquece de flores e os frutos amadurecem, pendentes nos ramos oscilantes ao vento.

Os grãos se intumescem no solo levemente aquecido e explodem em poemas de cor, em sons agitados, em dádivas de vida abundante. 

Revoam os pássaros, ampliam-se os dias, e as noites, salpicadas de círios divinos, são espetáculos convidando à reflexão.

O vale confraterniza com os altiplanos. 

Parece não haver distâncias nem separações.
  
Por fim, quando esta época estival logra a total potência, arde o Sol e o solo se resseca, o pó se ergue em nuvem, a vida novamente começa a fenecer. . . 

O dia é um todo de fogo preparando-se, ao largo das horas demoradas, para seguir adiante, até receber as primeiras lufadas frias . . 
.
E repete-se a roda dos acontecimentos em movimentada orquestração de ritmos . . .

Ventos festivos varriam os rincões gentis da Galiléia humilde, cantando esperança para as almas em sofrimento. 

Passado o grande inverno, sem nenhuma promessa de calor ou qualquer perspectiva de claridade, explodiam as dádivas primaveris numa inesperada sementeira de amor com imediata colheita de bênçãos.

Narra Mateus* com eloquência aquela ímpar quadra primaveril de acontecimentos e bonanças. 

A paisagem é a moldura do lago-espelho, em cujas bordas reflete-se o amor do Mestre pelas dores humanas. 

Naquelas paragens, nas cidades fronteiras e ribeirinhas, em cujo solo a balsamina confraterniza com o miosótis e o trigo dourado espia da terra jovial as redes espreguiçadas ao Sol, nas praias largas, Jesus viveu a ternura das gentes simples, sorriu com as crianças e abriu a boca para entoar a canção da esperança.

Por aqueles sítios de pobreza e festa natural, Suas mãos arrancaram das aflitivas conjunturas das enfermidades retificadoras os trânsfugas do passado, emulando-os para o crescimento moral pelas trilhas do futuro. 

Fez-se um suceder de fenômenos auspiciosos.

Ainda repercutia com profunda emoção nos ouvidos das almas os artigos e parágrafos em luz e esperança, que foram apresentados no monte, ao ser proclamado o Estatuto da Nova Era da humanidade do futuro. 

Os ouvintes não haviam retornado ao chão das necessidades habituais, irrigados pela vibração do Sublime Governador, quando Ele, descendo do cerro, foi solicitado por um leproso, que “O adorava, dizendo: Senhor, se quiseres bem podes tornar-me limpo” e Ele quis, liberando o enfermo da sua carga pútrida.

A ação fortalecia a palavra. 

O amor era mais forte do que a voz; esta, era suave e doce, enquanto aquele, poderoso e vital. 

O passado jugula o criminoso à algema disciplinadora, mas o amor libera o precito para resgatar em ação benéfica o delito infeliz. 

Não deseja o Senhor holocaustos, entretanto, esparze misericórdia. 

Há muita dureza no mundo e terrível crueza nos corações. 

Ele dulcifica. 

Ninguém foge à culpa, nem se evade do ressarcimento. 

O Seu amor anima os ferreteados a que se reencontrem e reparem os erros, ajudando suas vítimas e por elas fazendo-se amar.

Há expectativas atordoantes nos comensais da Boa Nova em delineamento.

O monte seria, simbolicamente, o mastro da bandeira da paz, desfraldada nas insuperáveis bem-aventuranças. 

Em Cafarnaum, prosseguindo com os elos da cadeia do sofrimento, que Ele rompe, um centurião acerca-se e intercede pelo seu criado paralítico. 

Uma confiança infantil numa seriedade adulta transparece naquele homem que comanda homens. 

Jesus propõe-se a ir curar o enfermo, porém o homem, que se acostumou à autoridade, pede-Lhe que mande um dos Seus subordinados e a Sua vontade se faria. 

Assim fez-se.

Este ordena e esse obedece.

Este quer e esse aquiesce. 

Jesus é a Autoridade e os Espíritos atendem. 

Não há maior autoridade do que aquela que lhe é própria, a que foi adquirida e não a que é concedida por empréstimo e pode ser retirada. 

A fé é energia de vital importância, por irradiar vibrações poderosas que atingem os fulcros das nascentes que produzem os acontecimentos, aí agindo. 

“Vai-te – disse o Amigo ao amigo confiante, - e como creste, assim te seja feito.”

Curou-se o servo do centurião.

No lar de Simão, onde Ele se recolhe por um pouco, a febre arde na velha sogra do pescador, que se aflige. 

Tocando-a, restitui-lhe o equilíbrio térmico. 

Irradia-se a inapagável Luz dos Séculos. 

Nunca mais a noite se fará total . . .

À tarde, chegam os obsidiados por Espíritos infelizes, suas vítimas, seus cobradores.

O ódio grimpa os duelistas da animosidade.

Não há separação entre mortos e vivos, unidos pelos vínculos dos sentimentos afins ou dos compromissos a que se atrelam no carro da vida. 

Sua palavra é medicação que atinge as ulcerações morais e as cicatriza.

Ampara o cobrador, antes ultrajado, e auxilia-o a ser feliz, informando que o calceta não fugirá de si mesmo. 

Um deseja segui-lO, pensando em gozos e comodidades. 

Como Ele não tem uma pedra para pôr a cabeça, apesar de “as raposas terem covis e as aves do céu ninhos”, o candidato, desiludido, foi-se embora. . . 

Outro pretende dar-se; todavia, quer antes enterrar o pai cadaverizado.

Não há tempo para simulações.

A vida transcende ao corpo.

E ele não se deu. . . 

O lago-mar sereno exalta-se e todos, na barca, temem; menos Ele, que dorme ou parece dormir. . . 

Ante o receio geral, Sua voz acalmam as ondas e os encarregados das “forças vivas da Natureza” tranqüilizam as águas. 

Nada supera o Rabi, no mundo de Deus, que Ele elaborou sob a proteção do Pai. 

Prosseguirá o ministério, naquelas e noutras paragens. . . 

Paralíticos, endemoninhados, cegos, catalépticos, hemorroíssa, mudo por ação obsessiva, por toda parte a dor, as provações cedem lugar ao pagamento pelo trabalho do amor. 

Eram todos, ontem como hoje, doentes da alma e desejavam a cura para os corpos. 

O Mestre fazia cessar os efeitos dos seus erros, sarando a matéria, entretanto, oferecia-lhes a diretriz evangélica, a verdadeira terapia para o Espírito, única medicação para eliminar os sofrimentos. 

O amor de Deus, refletido em Jesus, não tem limite. 

. . . Prosseguirá a música da esperança a substituir litania da loucura e da miséria. . .
  
A responsabilidade do resgate sobrepõe-se à cobrança cega.

O homem desperta para os compromissos. 

Os remotos tempos entenderão, e melhor farão entender o Mestre e Sua mensagem. 

Somente pelo amor se libertará o homem.

Os pecadores são o campo para a semente de vida eterna e os caídos, sem alternativa de soerguimento, fazem-se adubo para a própria recuperação ante a oportunidade feliz do Evangelho. 

Nenhum amor renteará com esse imensurável amor.
  
Aquele período primaveril não se repetiu, nem volverá a acontecer da mesma forma. 

As sementes, todavia, dormem no solo da quadra outonal em que as almas se demoram, para emergirem, logo mais, em embrião, reflorindo ao claro sol da Era Nova da eterna primavera que já começa. . .

*Amélia Rodrigues*

quarta-feira

A Última Aula


Sofre pregado à cruz o Inesquecível Mestre, 
Lembrando quanto viu na jornada terrestre. 

Vê-se menino a arguir os sábios da cidade, 
Mostrando a inteligência a brilhar na humildade. 

Mentaliza Canaã, onde aumenta a alegria 
Na formação de um lar que nunca possuiria. 

Recorda irmãos na fé, quais Pedro, João, Tiago, 
E os amigos fiéis às pregações do lago. 

Passa por privações sem que a dor o esmoreça, 
Não tem uma só pedra em que apoie a cabeça. 

Lembra o deserto hostil... Na prece em que se enleva, 
Ensina paz e fé às legiões da treva. 

Revê a multidão que o respeita e acompanha, 
Quando transmite a Terra o Sermão da Montanha. 

Vê lugar por lugar, nos longes a que Isa, 
Espalhando a bondade, o socorro, a alegria... 

Mas agora, na cruz, amargurado e pasmo, 
Escuta palavrões de ironia e sarcasmo... 

E diz, sentindo o fel que as injúrias lhe trazem: 
- “Perdoa-lhes, meu Pai!... Não sabemos o que fazem!...”. 

Ele que se entregara à caridade inteira, 
Faz do perdão mais luz na aula derradeira. 

É que todo perdão, sem queixa e sem medida, 
É conquista de Paz nos problemas da Vida.


*Amélia Rodrigues : Chico Xavier*

sexta-feira

A Importância de ser pequeno


Que vínheis discutindo pelo caminho? – Indagou sereno, Jesus, aos amigos, que chegaram esfogueados e suarentos à casa de Simão, filhos de Jonas, o pescador, onde os aguardava. 

Tomados de surpresa, os discípulos aturdidos entreolharam-se, sem coragem de responder. 

Eles conviviam com o Mestre, mas não O conheciam; partilhavam as Suas idéias, porém não haviam penetrado na sua profunda lição; ouviam, deslumbrados, os anúncios do reino de Deus, e permitiam-se anelar pelos triunfos humanos. 

Homens simples e toscos, comportavam-se, às vezes, como crianças desatentas em relação aos deveres, entregando-se a contendas inúteis e pelejas rudes por questões irrisórias... 

Assim sempre eram admoestados carinhosamente, mas com energia pelo Amigo, que lhes trabalhava o amadurecimento espiritual. 

A jornada que ali encerravam, havia sido traçada com segurança, significando-lhes o primeiro desafio a enfrentar, como preparação para os dias porvindouros. 

O Mestre aguardava-os com a habitual generosidade, feita de misericórdia e de compaixão. 

Amava-os com dúlcida ternura. Entregara-se-lhes com dedicação total, embora sabendo das suas dubiedades e dificuldades interiores. Por isso, convocara-os para o ministério, reconhecendo-lhes todos os problemas emocionais e debilidades morais. Alguns eram Espíritos nobres, que se emboscaram no corpo, que lhes amortecia a elevação, a fim de O seguirem, espalhando a Notícia... 

As suas inexperiências facultavam aprendizagem mais segura para os testemunhos do futuro. Por tal razão, tateavam nas sombras dos labirintos da insegurança até encontrarem o caminho que iriam percorrer com invulgar grandeza de alma. 

 Não, porém, naqueles momentos iniciais. 

Arrancados das fainas simples e repetitivas do cotidiano monótono, a súbita mudança não conseguiu alçá-los de imediato à altura correspondente. 

Esse resultado se faria, somente, a pouco e pouco. 

É sempre assim que se dá o amadurecimento moral, que faz do pigmeu um gigante e do ser simples, que a fornalha do sofrimento modela, um verdadeiro herói. 

Aquele era o material humano disponível para a construção da Era do Espírito Imortal e se tornava necessário trabalhá-lo com carinho e firmeza. 

A pergunta permaneceu no ar, sem resposta. 

A princípio, sentiram-se constrangidos, embaraçados. Deram-se conta da pouca importância da questão do debate, mas constatavam novamente o poder de penetração do Mestre no insondável dos seus pensamentos e atos. 

Por fim, vencendo o conflito, sem agastamento, responderam alguns: 

- Vínhamos discutindo em torno de quem de nós era o maior, o mais amado, o de importância mais significativa. 

“Todos reconhecemos que João é distinguido pelo vosso amor; Pedro é merecedor da mais expressiva confiança; 

Judas guarda as moedas e se encarrega do controle das nossas modestas finanças... E os demais? Que somos e que papel desempenhamos no grupo? 

“Afinal, qual de nós é o maior?” 

Certamente se sentiam contristados pela disputa, mas como houve-a, era justo serem honestos, libertando-se das dúvidas. 

Jesus envolveu-os na luz da compaixão, e com a sabedoria habitual, respondeu-lhes: 

- O grão de mostarda, menor e mais insignificante que qualquer outra semente, reverdece com o mesmo tom o solo abençoado pelo trigo vigoroso. A bolota do carvalho desenvolve a árvore grandiosa que nela jaz, assim como o pólen quase invisível de todas as flores se encarrega de transmitir beleza e perpetuar a espécie em outras plantas... Todos são importantes na paisagem terrestre. 

“O grão de areia se anula ante outro para construir a praia imensa que recebe o carinhoso movimento das ondas arrebentando-se no seu leito reluzente. 

“Tudo é importante diante de meu Pai, não pela grandeza, mas pelo significado de que cada coisa se reveste para a utilidade da vida. 

“Entre os homens, o maior é sempre aquele que se esquece de si mesmo, tornando-se o melhor servidor, aquele que não se cansa de ajudar, que se encontra sempre disposto para cooperar e servir sem outra preocupação, qual não seja a de beneficiar... Quem se apaga para que outro brilhe, torna-se o combustível, sem o qual a luminosidade desaparece. 

 “Há uma grande importância em ser pequeno, graças a cuja contribuição se apresenta o conjunto grandioso.

” Fez um oportuno silêncio, a fim de ensejar aos amigos maior reflexão para que nunca mais se esquecessem do enunciado, e prosseguiu: 

- Aquele que, dentre vós, desejar ser o maior, o mais importante, o mais amado, torne-se o melhor servidor, o mais atento amigo, sempre vigilante para ajudar e desculpar, porque esse, sim, fará falta, será notado quando ausente, se tornará alicerce para a construção do edifício do Bem. 

No silêncio que se fez natural, os viajantes dispersaram-se pelas diversas peças da casa de Simão, enquanto lá fora, o Sol de verão dardejava os seus raios de fogo sobre a terra que se abrasava.

* Lucas 9-46.
Nota da Autora espiritual

Paz!

segunda-feira

O Excelso Canto


Aquele junho estava ardente mais do que nos anos anteriores. 

O dia longo murchava lentamente, abafado, enquanto o Sol, semi-escondido além dos picos altaneiros, incandescia as nuvens vaporosas, que o vento arrastava no seu carro pulverizado de púrpura e ouro. A montanha, de suave aclive, terminava em largo platô salpicado de árvores de pequeno porte, que ofereciam, no entanto, abrigo e agasalho. 

Desde cedo a multidão afluíra para ali, ansiosa, como atraída por fascinante expectativa. Eram galileus da região em redor; pescadores, agricultores, gente simples e sofredora, sobrecarregada e aflita. Eram judeus chegados dalém Jordão, de Jerusalém, estrangeiros da Decápolis. Misturavam-se as vozes nos dialetos regionais e uniam-se todos na mesma imensa curiosidade feita de expectação e desejo. 

Esmagada por poderosos, experimentava invariavelmente o desprezo da jactância e da presunção.

Amavam-se aquelas criaturas na sua dor e necessidade; interdependiam-se. 

Aquele Rabi, que os alentava, era o Rei aguardado há séculos, carinhosamente esperado, que os libertaria do opróbrio e da servidão. . . 

Ouviram-nO e O viram mais de uma vez, e constataram que jamais alguém fizera o que Ele fazia ou falara como Ele falava. 

Acorreram de toda parte: das redondezas do lago e dos campos, das cidades distantes e das aldeias para ouvi-lO. 

No ar pairava algo especial. 

O azul doirado dos céus confraternizava com o verde queimado da terra, e a brisa cariciosa chegava do mar, das bandas e contrafortes do Esdreion, trazendo o acre-doce odor do solo crestado.

A montanha, em sua grandeza especial, é também um símbolo: o Filho do Homem que desce aos homens vencendo as dificuldades do mergulho no abismo e do Homem que sobe, conduzindo os homens por sobre escarpas lacerantes até o seio de Deus. 

A montanha também é destaque maravilhoso na paisagem. 

Galgar, subir a montanha pode significar vencer os óbices que perturbam o avanço na jornada evolutiva. Descer, deixar o monte, é não considerar o empecilho e refazer o caminho, alongar as mãos em direção dos que ficaram tolhidos na retaguarda. . . 

É muito áspera a descida aos homens para erguê-los a Deus. 

Perder-se entre as querelas humanas para encontrar os Espíritos em perturbação na noite das necessidades aparentes e resplandecer em madrugada sublime, guiando-os por sobre os escombros da véspera, a fim de subirem até o planalto onde brilha, permanente, o sol do claro e demorado Dia. . . 

Descer sem decair. 

Os homens suscitam obstáculos onde existem opiniões e levantam serros onde estão convenções. 

Esquecer-se e vir até os que se debatem nas questiúnculas, que vitalizam com desconcerto emocional e sofreguidão. 

Dar-se, integrar-se de tal modo que seja comum a todos, mas a nenhum igual. 

Este o díptico: subir, descer. 

Subir sem abandonar a baixada e descer sem esquecer os Cimos. 

A montanha, era uma montanha qualquer. . . 

E o poema que ali seria apresentado jamais foi ouvido, nunca mais será ouvido em qualquer época, equivalente. . . 

O Evangelista Meu'>ateus assevera: "E Jesus, vendo a multidão, subiu a um monte. . .", enquanto Lucas informa: "E descendo com eles parou num lugar plano. . . 

" Subir ou descer! Não importa. 

A verdade, porém, é no plano do aclive ele se deteve e, de pé Vestiu-se de poente. 

Auréola refulgente, incendiou-lhe os cabelos que a leve brisa desnastrava, esfogueados. 

As vestes abrasadas e a ansiedade do mundo em volta. Na magote homens, mulheres e crianças que levariam no cérebro e no coração a Mensagem, o Poema divisor das realidades diferentes. 

A multidão era a sua paixão, a sua vida. Amá-la e atendê-la, o seu fanal. 

Sentindo a multidão submissa, magnetizada, esquecida de si mesma, numa sublime comunhão em que extravasava toda a vida. Ele "abrindo a sua boca, os ensinava, dizendo: 

 "- Bem-aventurados os pobres de espírito, porque deles ;é o Reino dos Céus!" 

Os pobres, todos os conheciam. Eram maltrapilhos, malcheirosos, doentes. Distendiam a mão que a miséria estiola. 

Eram pobres; no entanto, quantos deles portavam os tesouros da riqueza do espírito! Espírito rico de revolta, possuidor de paixões, dono de vasto cabedal de angústia e mágoa. . . 

Quem seria os "pobres de espírito"? O vento perpassa em leve cantilena pela multidão pensante, a raciocinar, no silêncio que se fez espontâneo, na pausa que, natural, se alonga. . . 

Os ricos possuem moedas e títulos, propriedades e espíritos ricos de ambições, de orgulho, de misoneísmo. 

Os "pobres de espírito" são os livres de posses e ambições. Amantes da liberdade, pugnadores dos direitos alheios, idealistas, cultores da verdade, preparados para a verdade. 

Sem peias atadas à retaguarda, sem ímãs atraentes à frente. 

Semelhantes aos simples, desataviados e às crianças. Inteiramente livres. 

Candidatos ao Reino dos Céus e súditos dele, desde já. Inocentes porque venceram com o tributo das lágrimas e o patrimônio dos suores. Ressarcidos o débito, lavadas as mazelas, puros, portanto, sem a vacuidade do "eu", predispostos à auto-deliberação, à auto-sublimação.

Livres dos resíduos do mundo, não consumidos, não afligentes. Com todos, ao lado de todos, sem ninguém, não amarrados aos outros, às convenções dos outros. 

 "Pobres de espírito!"

*Amélia Rodrigues*

quinta-feira

A Respeito de Seu Filho


Seu filho é abençoado aprendiz da vida. Não lhe dificulte a colheita das lições, fazendo-lhe as tarefas.
Seu filho é flor em botão nos verdes ramos da existência. Não lhe precipite o desabrochar, estiolando-lhe a vitalidade espontânea.

Seu filho é discípulo da existência. Não lhe cerceie a produtividade, tomando sobre os seus ombros os misteres que lhe competem.

Seu filho é lâmpada em crescimento de luz. Não lhe coloque o óleo viscoso da bajulação para que não afogue o pavio onde crepita a chama da esperança.

Seu filho é fruto em formação para o futuro. Não procure colher, antes do tempo, o benefício que lhe não pertence. Lembre-se, mãe devotada que você é, que o seu filho é também filho de Deus. 

Você poderá caminhar ao seu lado na estrada apertada, mas ele só terá honra quando conseguir chegar ao objetivo conduzido pelos próprios pés. Você tem o dever de lhe apontar os abismos à frente; mas a ele compete contornar os obstáculos e descer às baixadas da existência para testar a fortaleza do próprio caráter. Você deve ministrar-lhe o sustento do Evangelho; mas a ele compete o murmúrio das orações, na prece continuada das ações nobres.

Seu filho é o discípulo amado que Deus pôs ao alcance do seu coração enternecido, no entanto, a sua tarefa não pode ir além daquele amor que o Pai propicia a todos, ensinando ao tempo, corrigindo na luta, e educando através da disciplina na para a felicidade. Mostre-lhe a vida, mas deixe-o viver. Fale-lhe das trevas, mas dê-lhe a luz do conhecimento. Mande-o à escola, mas faça-se mestra dele no lar. Apresente-lhe o mundo, mas deixe-o construir o próprio mundo. Tome-lhe as mãos e ponha-as no trabalho, ensinando com o seu exemplo, mas não lhe desenvolva a inutilidade, realizando as tarefas que lhe competem.

Seu filho é vida da sua vida que vai viver na vida da Humanidade inteira. Cumpra o seu dever amando-a, mas exercite o seu amor ensinando-o a amar e fazendo que no serviço superior ele se faça um homem para que o possa bendizer, mais tarde. Ame, em seu filho, o filho de todas as mães e ame nos filhos das outras o seu próprio filho, para que ele, honrado pelo amor de outras mães, possa enobrecer o mundo, amando outros filhos.

Seu filho é semente divina; não lhe negue, por falso carinho, a cova escura da fertilidade, pretextando devotamento, porque a semente que não morrer jamais será fonte de vida.

Mãe! Seu filho é a esperança do mundo; não o asfixie no egoísmo dos seus anelos, esquecendo-se de que você veio à terra sem ele e retornará igualmente a sós, entregando-o a Deus consoante as leis sábias e justa da Criação.

*Amélia Rodrigues:Divaldo Franco

quarta-feira

O Semeador



O SEMEADOR

A professora Angélica não era considerada uma pessoa equilibrada, em razão de suas esquisitices.
Os seus alunos da Escola de 1º grau, onde ensinava desde há muitos anos, tinham-na na conta de uma pessoa estranha.

Embora fosse excelente mestra, muitas vezes era surpreendida, quando nas suas viagens de ida-e-volta do lar à escola, com gestos e movimentos de mãos que não condiziam com a sua posição de educadora.

Dona Angélica residia numa cidadezinha e ensinava numa vila próxima.

Os dois lugares se comunicavam por meio da estrada-de-ferro.



Diariamente ela tomava o trem, sentando-se ao lado da janela, quando ia à aula e, quase sempre retornava para casa sentada no mesmo lugar.

As crianças faziam zombaria, criticavam-na, mas ela não sabia.

Mesmo alguns pais irresponsáveis, que se davam à maledicência, comentavam com certa falta de caridade:

- "É uma boa educadora, - diziam com malícia, para logo completarem, - porém completamente maluca."

E punham-se a rir, impiedosamente.


Os anos se passavam e a situação continuava a mesma.
Várias gerações receberam da bondosa e dedicada professora ensinamentos valiosos e abençoados.
Ela era uma pessoa de boas maneiras, calma e gentil, mas não muito bem compreendida.

Envelhecia no exercício do dever de preparar as crianças para um futuro melhor, com espírito de abnegação e devotamento quase maternal.

Certo dia em que viajava para a sua querida Escola, com diversas crianças na mesma classe do comboio, movimentando, de quando em quando, suas mãos, enquanto as crianças na parte de trás sorriam maliciosamente, Alberto, seu aluno de dez anos, que cursava a 4ª série, porque amava sua mestra, aproximou-se dela, sentou-se ao seu lado e, com ternura, perguntou-lhe:

- Professora, por que você insiste em continuar com essas atitudes loucas?



- O que deseja dizer, meu filho? - interrogou, surpresa a bondosa mestra.

- Ora, professora - continuou ele, - você fica dando adeuses para os animais, nos pastos, abanando as mãos... Isto não é loucura?

A mestra amiga compreendeu e sorriu. Sinceramente emocionada, chamou a atenção do aluno, dizendo:

- Veja esta bolsa. Nota o que há aí dentro? - E apontou para a intimidade do objeto de couro forrado.

- Sim - respondeu Alberto.

- Sabe o que é? - Insistiu.

- Não, senhora.



- É pólen de flores, são sementes miúdas... Observe bem. Há quase vinte anos eu passo por este caminho, indo e vindo da escola. A estrada antes era feia, árida, desagradável.

Eu tive a idéia de a embelezar, semeando flores. Desse modo, de quando em quando, reúno sementes de belas e delicadas flores do campo e as atiro pela janela...

Sei que cairão em terra amiga e acarinhadas pela primavera se transformarão em plantas a produzirem flores, dando cor à paisagem, criando alegria. Como sempre passo por aqui eu gostarei de que pelos meus caminhos haja sempre beleza a fim de agradar a todos que também transitarão por estes caminhos.

Calou-se por um pouco e depois disse:

- Alberto, meu filho. Na vida, todos somos semeadores. Há uns que semeiam flores e descobrem belezas, perfumes, frutos e outros que semeiam espinhos e se ferem nas pontas agudas. Ninguém vive sem semear, seja o bem, seja o mal. Felizes são aqueles que por onde passam deixam sementes de amor, de bondade, de flores... Nunca te esqueças disso, entendeste?



- Sim, professora. - Respondeu o aluno com emoção. - Eu também hei de semear flores... Muito obrigado!

Franco,Divaldo Pereira.
Da obra: O Semeador.
Ditado pelo Espírito Amélia Rodrigues.



Muita paz a todos...