sexta-feira

O Voo da Gaivota X



O Mandante do Crime
 (conclusão)


- Satanás três vezes! - falou ele repetindo a frase depressa.

- Que susto! Quis assustar e vocês me assustam. Vocês são horrorosas! Moças, estou só brincando, não me peguem.

Estava realmente assustado. Elisa me indagou:

- Patrícia, o que está acontecendo?

- Acho que ele tem o costume de assustar os outros, pelo Umbral.

- É isto aí!-falou-nos olhando com medo. - Sou o rei dos sustos. Hoje me dei mal...

- Assustou-se conosco? - perguntou Elisa.

- Como não? É difícil ver duas senhoras assim...

Pensou em dizer feias, mas não disse. Saiu correndo. Rimos. Elisa comentou:

- Quem assusta, um dia acaba assustado.

- Ele confundiu-se-falei.-Vendo-nos achou que tinha tudo para passar um belo susto.

Conversávamos distraídas atrás da pedra e, ao nos ver de perto, se decepcionou.

Normalmente brincalhões não costumam brincar com socorristas, pois os temem porque não querem, no momento, sair de onde estão e sabem que eles podem pôr fim às suas
brincadeiras de mau gosto. Confuso, assustou-se.

Saímos de trás da pedra e voltamos à trilha, para logo chegarmos às proximidades do Túnel Negro. Escondemo-nos perto e ficamos observando. Não demorou muito, e dois sujeitos esquisitos, parecidos com o grupo que vimos, entraram na fortaleza sem problemas.

Aproximamo-nos atentas e com cautela, pois estávamos observando e não queríamos alertá-los.

Se,entretanto,algo saísse errado,eles não nos atacariam, pois temos alguns recursos para sair bem dessas situações, como nos tornar invisíveis,volitar rápido e outros, que não devem ser mencionados no momento, para que não venham a ser do conhecimento de desencarnados moradores do Umbral.

Ficamos perto do muro do Túnel Negro,que é todo cercado por essa parede forte,larga e com,talvez, uns vinte metros de altura.É um muro de tom marrom-escuro.A fortaleza só tem um portão e, na frente dele, havia dois vigias, os quais pelo que vimos não estavam atentos,conversavam e, às vezes, iam para a parte de dentro. Conseguimos ver que após o portão havia uma sala onde uma mulher, atendente, dava informações e recebia a todos que chegavam.

Não fomos lá para entrar, por isso cautelosamente só observamos tudo. Deu também para ver que, no meio da construção, existia uma torre bem alta, certamente o local de observação.

O movimento era bem pequeno, talvez pelo horário e também porque Túnel Negro não é lugar de muitas visitas e, sim, restrito aos moradores e viciados.

Depois de ver tudo o que nos interessava, saímos sem sermos notadas, não voltando pela trilha, mas, perto dela, a alguns metros ao lado.

- Patrícia - falou Elisa - vai ser difícil!

- Que nada, ânimo! Tiraremos Walter de lá.

Foi quando escutamos:

- Ei, sua branquela! Ei, neguinha! Podem me ajudar.

- Quê? - Elisa indagou.

- Por favor - corrigiu a voz -, as senhoras podem me ajudar?

No Umbral, escutam-se muitas coisas desagradáveis e às vezes obscenas, para as quais não se deve dar importância. Era voz, que nos parecia de alguém sofrendo, e fez minha companheira responder. Voltamos para o local de onde veio a voz e nos deparamos com um homem sentado no chão.

- O senhor está nos pedindo ajuda? - indaguei.

- Queiram me desculpar, pensei que não iam me ouvir ou atender.

- Está desculpado - disse Elisa. - Mas o que quer?

- São espíritos bons? Pela aparência e roupas só podem ser. Estou preso aqui e quero sair.

Nós o examinamos. Era um homem de uns sessenta anos, deveria ter essa idade quando desencarnou. Apresentava-se sujo, descabelado, machucado e permanecia sentado, porque estava acorrentado por uma pema, a direita, a uma estaca no solo.

Seria para nós bem fácil libertá-lo, pois a corrente, como tudo que existe no Plano Espiritual, é do mesmo material que o nosso perispírito. Poderíamos arrebentar a corrente com nossa força mental, porém devemos analisar sempre antes de conceder ajuda desse tipo, porque não basta só libertar. Temos de prestar atenção, para não prejudicar mais ainda o desencarnado preso. Se o libertássemos para onde iria? Que faria?

Seria aprisionado novamente? Nesse caso, seria pior, porque sofreria mais ainda.

- Quem o prendeu? - Elisa indagou.

Olhei-o fixamente e convidei-o mentalmente a não mentir. Se o fizesse,logo saberia, lendo também seus pensamentos, eu teria a verdade. Fazemos isto facilmente com desencarnados fracos e com os que sofrem. Com os moradores do Umbral, com os que são maus e fortes,é bem mais difícil,porque para fazer isso com essedesencarnados trevosos tem que se treinar muito e saber usar bem esta habilidade.

O homem nos olhou bem, suspirou, enxugou algumas lágrimas e respondeu:

- Meu genro, ou melhor, meu ex-genro... Quando encarnado, fomos sogro e genro...

Chamo-me Jacy e estou há tempos preso aqui.

- Não sai para nada? - perguntou Elisa.

- Não, meu genro vem sempre aqui, ora me bate, ora me traz o que comer e água. Ele é violento e mau.

- Por que ele o prendeu? - indaguei.

- É uma longa história. Soltem-me e, estando num lugar seguro, conto a vocês.

Elisa me olhou e me disse mentalmente:

"Vamos libertá-lo e, se não pudermos socorrê-lo,o deixaremos em outra área do Umbral.

Por favor, Patrícia!". - rogou, notando que eu hesitava.

- Vamos soltá-lo - concordei:

Arrebentamos fácil a corrente e, como a perna dele estava inchada, ajudamo-lo a ficar de pé,mas ele gemia de dor. Apoiando-se em nós, retornamos à trilha rumo à cidade dos encarnados. Logo chegamos e nos sentamos na relva, num terreno vago, e Jacy, como prometera, contou sua história.

- Encarnado, fui um homem rico, não milionário, porém com muitas posses. Tinha cinco filhos, e uma das minhas filhas foi casada com esse que me prendeu. Ele tratava muito mal minha menina, batia nela, além de manter muitas amantes, gastando tudo o que possuía.

Pensando ficar livre de tal peste, mandei matá-lo, pagando bem caro um assassino que o eliminou com um tiro. Ninguém descobriu, nem ficaram sabendo que eu fora o mandante. Mas ele, depois de desencarnar, ficou sabendo e esperou que eu também desencarnasse, para me maltratar.

Já lhe pedi perdão, mas ele não me atende...

- Pediu, de coração? - Elisa indagou.

- Sim, mas logo que desencarnei, sentia que, se voltasse ao passado, mandaria fazer tudo novamente. Depois, com o tempo, lá sozinho e preso, fiquei a pensar e entendi que estava errado. Não tinha o direito de tirar a vida física de ninguém.

- De fato, Jacy, não temos o direito de cortar a existência, num corpo de físico, de ninguêm.

Agora você está livre e o convido para se voltar ao bem, a pedir perdão a Deus e recomeçar a vida, auxiliando a si mesmo e a outros irmãos. Aceita?

- Vamos levá-lo a um lugar onde será hospitalizado, para sarar de todos seus machucados - falou Elisa delicadamente.

- Este lugar é bonito? - perguntou ele. - Ouvi dizer que onde os bons moram é fantástico.

- Sim - repliquei -,é maravilhoso para aqueles que querem mudar, mas desinteressante para quem cultiva os prazeres materiais. Você irá para um Posto de Socorro aqui perto.

- Obrigado - falou com sinceridade.

Nós o levamos para um Posto de Socorro da região localizado perto do Umbral.

Tocamos a campainha, apesar de que esses Postos de Socorro têm sempre vigias e locais de observação,podendo ver quem se aproxima e, pelas vibrações, sabem também quem é.

Os portões dos Postos normalmente são trancados, mas poderiam, só pela vibração, ser abertos, não necessitando bater ou tocar a sineta que existe em alguns. Porém esse bater é costume no Plano Espiritual, porque, ao parar no portão ou porta, o visitante é observado melhor.

Em muitos Postos, quando o portão é aberto, defrontamo-nos com um hall ou sala, onde são normalmente atendidos quem os visita. Em casos de emergência, quando se está para chegar a essas casas de auxílio, pede-se mentalmente e o portão se abre ao se estar perto.

Há casos também, em que os trabalhadores da casa vão encontrar-se com quem pede ajuda, para auxiliar. Esse bater é mais uma forma educada de visitar uma casa.

O portão foi aberto e fomos convidados a entrar. Explicamos para a senhora que nos atendeu, o porquê de nossa presença, e pedimos abrigo para Jacy. Atenderam-nos prontamente e, já no pátio, Jacy nos indagou:

- Vocês não iam me levar para um lugar lindo? Aqui é tão simples!

Entendi-o. Lugares bonitos se diferenciam pelo gosto. Para muitos, lugares lindos são de luxo e ostentação. Para outros, os que se afinam com a simplicidade, a maior beleza é a vibração de harmonia emitida por seus sustentadores.

Para Elisa e eu, o Posto é muito bonito, com canteiros floridos a enfeitar o pátio, e árvores arredondadas de um verde muito agradável estavam entre os canteiros, cobrindo bancos nísticos, num convite às pessoas a se sentarem. O prédio, em formato de U, de três andares, é majestoso e tem janelas grandes, com flores no beiral em quase todas.

- O quê?! - falou Elisa, espantada. - Não acha aqui bonito?

- Pensei que fosse diferente - respondeu Jacy.

Deixamos Jacy acomodado numa enfermaria e voltamos aos nossos afazeres.Dias depois, fomos visitá-lo e nos informaram que Jacy saiu sem licença e foi para sua ex-casa terrena.

Agradecemos e partimos.

- Patrícia, vamos procurar Jacy?

- Elisa, ele fez sua escolha.

- Vamos ver o que ele está fazendo. Talvez esteja precisando de ajuda. E se o genro o pegou novamente?

- Está bem, vamos - respondi.

Foi fácil achá-lo. Quando ele nos contou sua história, deu todos os detalhes e até mostrou a casa onde morou. Nós o encontramos triste, a chorar na sala de sua ex-casa terrestre.

Ali fora sua casa, mas não um lar, porque lar é união de moradores com afeto. É, para nós desencarnados, todo o lugar onde somos amados. Ao nos ver, chorou mais alto.

Ele sofria realmente.

- Sou tão infeliz! Saí daquele lugar de luz e paz e vim para casa. Só encontrei erros e problemas.

- E por que saiu? - quis saber Elisa.

- Quis vê-los, tinha saudades.

- Deveria ter esperado. Quando pudesse, teria permissão.

- falou minha amiga.

- E agora, o que faço? Tenho medo!Quero voltar e não sei.Será que vocês me levariam de volta? Por favor, ajudem-me de novo! Sei que não mereço, sou um mandante de crime. Mas vocês são tão boazinhas!

- Podemos levá-lo - disse séria -, mas se prometer que será obediente, comportado e, logo que possível, deverá passar de servido a servidor. E tem mais: ser agradecido.

- Prometo fazer isso tudo.

Levamo-lo de volta.

Como é triste cometer erros e ter a própria consciência a nos cobrar, e não os que prejudicamos a fazê-lo.Consciência tranqüila e sem erros significa nossa tranqüilidade, porque a dor do remorso é terrível. Quem faz o mal, é insensato.

Vendo-me pensativa, Elisa disse:

- Patrícia, é para alertar as pessoas que você estuda tanto e deseja ensinar?

- Sim, por isso e por muitas outras coisas também. Porque, Elisa, aquele que sabe tem mais chance de acertar, e conhecer representa fazer com sabedoria. Somos livres por tudo por aquilo que sabemos e escravos pelo que não sabemos. Não devemos compactuar com o erro, mas amar a presença de Deus no pecador.

Esclarecendo, educando, enfraquecemos o erro e fortalecemos o Bem nos que erram.

- Patrícia, admiro você!

Sorrimos. Viver tentando acertar é maravilhoso.


continua...

bjs,soninha

Nenhum comentário: