domingo

Nossos Filhos São Espíritos // 01

 Hermínio Miranda (autor)

DEDICATÓRIA 
Os pais que me desculpem, mas este livro é dedicado, por óbvias razões, às mães. 
Não menos óbvia é a escolha de Inez para receber, em nome de vocês todas, este singelo testemunho de carinho e apreço. Sem ela não teria sido possível desenvolver, com êxito, o projeto de trazer da dimensão invisível três espíritos que queríamos como nossos filhos, a fim de partilharem conosco o privilégio da vida. 
Dr. Jorge Andréa dos Santos
APRESENTAÇÃO 
Há mais de três décadas acompanhamos os escritos de Her­mínio Miranda. Situamo-lo entre os melhores escritores espíritas, o que lhe dá um natural espaço alicerçado em seu qualitativo trabalho, cujos reflexos não ficarão somente no hoje, mas, também, no amanhã e no depois.

Nestas despretensiosas linhas, à guisa de prefácio, estamos informando aos leitores, sem intenções de elogios pessoais, um valoroso livro que foi pontilhado em sugestivas e bem-elaboradas obser­vações diante dos acontecimentos da vida. Daí o autor ter dado bastante ênfase aos fatos da infância e às memórias pretéritas.

O livro do nosso Hermínio é eloquente, porqüanto atinge o social, e mais do que útil, porque busca explicação nas razões de nossa própria vida. As suas palavras, em positivas demonstrações, concla­mam à reconstrução da fé, visando seus puros conceitos; alguns movimentos religiosos que deviam enaltecê-la, levaram-na quase a ruína.

A meta do livro é mais profunda que as idéias por si só ventiladas; sua ajustada descrição permitirá ao leitor alcançar os horizontes de suas demarcações psicológicas. As conceituações simples e clarificantes são um chamamento adequado no burilamento das veredas de nossas necessidades terrenas. 
O autor escreve, tão-somente, com proveito para o leitor. E um dom que lhe pertence, conquistado em suas múltiplas vivências. Seus pensamentos estão colimados em atenciosas e harmonizadas propostas, a fim de reativarem a ética diante das falências sociais e mesmo religiosas dos tempos atuais. A personalidade da criança foi traduzida em seus princípios espirituais, o que possibilita uma visão mais precisa da finalidade humana.

Em todos os parágrafos percebe-se linfa cativante, construtiva e sempre renovadora, propiciando atencioso convite ao conhecimen­to e, mais do que tudo, adverte-nos das responsabilidades contidas no caminho infindo da evolução. Os relatos plenos de vida nos fazem compreender, nas razões da psicologia profunda, as raízes do incons­ciente ou espírito com suas sugestões telegráficas ao intelecto físico —a zona consciente ou personalidade.

O valor do autor está na procura constante de um alvo — o conhecimento dos fatos espirituais que participam do nosso dia-a-dia e que muitos ainda desconhecem e não lhes dão presença; entretanto, são importantes elos na linha de nossas vidas.

O conteúdo da obra, a parecer entrecortado pelos títulos, possui rica seqüência de bem-arrumadas idéias dando-lhes finalida­de. Se observarmos, com atenção, os capítulos do livro, apesar de seus próprios e inconfundíveis assuntos, possuem um encadeamento, cujo conjunto traduz uma autêntica saga. O bom escriba conseguiu, de suas historietas, transformá-las em belas e harmoniosas canções; por falarem à nossa alma, as baladas compuseram uma sinfonia.
Rio de Janeiro, 24 de janeiro de 1989. 
Jorge Andréa dos Santos

HISTORINHA DE UM LIVRO INESPERADO 
 Hermínio Miranda
OS LIVROS, COMO AS PESSOAS, os bichos, os países, as cidades e os povos têm sempre uma história. Pode até nem ser uma empolgante aventura como a do povo hebreu, mas há sempre o que contar sobre eles. Este, por exemplo, surgiu inesperadamente. Pelo menos eu não contava com ele, nem o tinha na minha programação. Quem o sugeriu foi um amigo muito querido ao meu coração. Sem mais nem menos, no correr da conversa, ele me perguntou certa vez: — Por que você não escreve um livro sobre a criança?

Tomado de surpresa, não tive muito o que dizer naquele momento. Criança? Eu? E eu entendo de criança? Só mais tarde percebi que, sim, era bem possível que eu conseguisse escrever um texto sobre crianças. Por que não? A essa altura, a maquininha de pensar já estava rodando em silêncio. Quando me sentei para escrever, parece que o livrinho já estava pronto em alguma misteriosa gaveta da mente. Ele foi surgindo quietinho e se passando para o papel. Em pouco mais de um mês estava pronto.

Outra surpresa me estava reservada: o livro teve uma acolhida generosa por parte de leitores e leitoras. Ao chegar à quarta edição, achei que era chegado o momento de fazer-lhe uma revisão, acrescentar algum material e dar-lhe nova roupagem, mas, principal¬mente, aproveitar a oportunidade para testemunhar minha gratidão aos milhares de leitores que resolveram conferir o que teria eu a dizer sobre nossos filhos. Parece que gostaram. É o que me dizem, pessoalmente ou por carta e telefone. E, naturalmente, foi muito bom saber que tantas pessoas gostaram desta conversa acerca de crianças.

Muito obrigado e que Deus nos abençoe a todos. 
HCM — Outono de 1993
 Capítulo 01
OLHOS DE VER E OLHOS DE OLHAR 

O DR. PIMENTEL CORTOU O CORDÃO umbilical, enrolou a criança em uma toalha era uma menina, colocou-a cuidadosamente de bruços e passou a cuidar da mãe, exausta e dolorida.Eu tinha 23 anos de idade e pela primeira vez na vida agitavam-se em mim as poderosas emoções da paternidade, com todas as suas perplexidades, complexidades e expectativas.

Aproximei-me do pequeno embrulho sobre a cama para olhar de perto minha filha. Pensava, talvez, encontrá-la cochilando, a sonhar, ainda, com os mistérios de suas origens. Foi uma surpresa observar que tinha os olhinhos escuros bem abertos, atentos e acesos, a me contemplarem de maneira enigmática e inquisitiva. Lembro-me perfeitamente das ru-guinhas traçadas na testa exígua, pelo esforço que fazia ao levantar a cabecinha careca, como se perguntasse a si mesma:

— Será que esse sujeito vai ser um bom pai para mim? Cadê minha mãe? E agora, que vão fazer comigo? Quanto tempo vou ficar aqui, enrolada neste pano?

Quanto a mim, não me recordo dos pensamentos que transitavam pela minha mente, mas sei que eram muitos, e desencontrados. Acho mesmo que tinha tantas perguntas quanto ela, talvez mais, não sei. Uma coisa era certa: Ana-Maria acabava de chegar. (Eu sabia o nome dela porque já o havíamos escolhido com a devida antecedência. Embora houvesse um nome masculino de reserva, de certa forma eu ‘sabia” que seria uma menina. Mistérios esses que hoje entendo melhor do que então.) Que ela chegara, não havia dúvida, pois estava ali, olhos curiosos, prontinha para começar a exploração do novo mundo em que viera viver. Minha dúvida era outra, ou seja, de onde vinha aquele ser? A lógica me dizia que se chegara aqui é porque partira de algum lugar, onde estava antes de vir. Onde, porém? Aprendera eu, em tempos, agora remotos, da infância, que Deus criava uma alma novinha em folha para cada criança que nascia, mas eu tinha já minhas dificuldades com essas e outras informações. Não havia como questionar a sabedoria, a grandeza e o poder de Deus, que ali estavam patenteados, mesmo porque, obviamente, não poderíamos, a jovem esposa e eu, ter criado aquela pessoinha a partir do nada. Eu aprenderia mais tarde que o ser humano descobre coisas, mas não as cria, nem as inventa, e nós, certamente, não havíamos inventado aquele embrulhinho morno de gente que atentamente me espiava.

Quem seria aquele ser? De onde vinha? O que pretenderia da vida? Como seria ela? Que papel me caberia, e à sua mãe, na vida que apenas começava? Ou será que não estava começando e sim continuando?

Eu não sabia. Mas queria muito saber, ter respostas para essas indagações e muitas outras, de que nem me lembro ou sequer tenham sido formuladas, mesmo porque, como disse, eu mergulhara em um turbilhão de inesperadas e insuspeitadas emoções. Estas, contudo, não me suscitavam temores ou inquietações e sim uma estranha alegria, ao perceber que também eu tinha condições de participar, com minha modesta contribuição, daquele deslumbrante espetáculo de renovação da vida.

As dúvidas ficavam para mais tarde. Um dia eu saberia, devo ter pensado. Por enquanto, havia providências a tomar, neste lado de cá da vida, onde os seres chegaram há mais tempo e andam, falam, riem e choram. Mas bem que eu gostaria de ter alguém ali que me dissesse alguma coisa sobre o que estava acontecendo diante de mim.

Este é, pois, o livro que eu gostaria de ter tido em minhas mãos, não só naquele distante 22 de agosto, mas antes, quando Ana-Maria era apenas projeto, bem antes que seu marcador pessoal começasse a registrar o tempo vivido na Terra.

Algumas das minhas perguntas ainda teriam de esperar um bom punhado de anos. Outras, creio eu, precisarão de mais alguns séculos, pois nosso Pai Maior não parece ter grande pressa em explicar-nos aquilo que nós ainda não temos condições de entender.

O apóstolo Paulo, que sabia das coisas, escrevendo aos seus amigos de Corinto, disse o seguinte: 
— E eu, irmãos, não vos pude falar como a (seres) espirituais senão como a carnais, crianças em Cristo. Dei-lhes leite a beber e não alimento sólido porque ainda não o podíeis suportar. Nem ainda agora o podeis, porque ainda sois carnais.

Como os coríntios, eu era carnal e acho que nem o leite me fora dado, porque tudo quanto eu podia ver é que, de alguma forma, havia um pouco de mim naquele tépido bolinho de gente, à espera de que a tomássemos nos braços e, depois, pelas mãos, lhe mostrássemos como era nosso mundo. E já sentia, nas profundezas da memória do futuro, aquele dia em que ela não mais precisasse das nossas mãos e partisse para viver a sua vida. Nós sempre tememos um pouquinho. 
Não é que falte confiança, é que paira sempre, aí por cima, um vago temor de que o filhote ainda implume não consiga acertar com os invisíveis caminhos do céu, que tem de percorrer no voo ainda incerto. Mas isso não chegava a ser uma tristeza, porque, afinal de contas, a vida era dela e não nossa, e como eu aprenderia posterior-mente, antes de sermos filhos uns dos outros, somos todos filhos de um só Pai. E Ele tem sido muito competente, pois sempre deu boa conta de nós. 
Não era tristeza; nada disso! Apenas uma saudade antecipada, que me espreitava das dobras do desconhecido, tal como os olhinhos escuros de Ana-Maria. Parece que eu via, também, no futuro, umas ruguinhas de preocupação. Ou seria apenas a exaltada imaginação de um jovem pai de 23 anos, mal saído de sua própria infância?

Seja como for, de alguma forma misteriosa e inarticulada, pois não tinha palavras para expressar tudo aquilo, eu confiava em Deus e na menina dos atentos olhinhos. Como também confiaria em duas outras pessoas que, sem eu saber, estavam à nossa espera, do outro lado do véu, que àquela altura me ocultava importantes mistérios da vida. Deus não julgara oportuno revelar-me coisas para as quais eu ainda não tinha “olhos de ver”. Meus olhos eram apenas de olhar...

Nem Deus, nem meus filhos me decepcionaram, porque muito me ensinaram desde então; mas às vezes penso que as coisas teriam sido mais fáceis se eu tivesse lido algo parecido com este livrinho que o leitor tem agora em suas mãos. Só que, se assim fosse, eu não teria tido a alegria de escrevê-lo e não estaria hoje tão grato a Deus por ter-me permitido fazê-lo. E a Ana-Maria, Marta e Gilberto por terem me ensinado muitas das coisas que nele foram colocadas e que, sem eles, teriam passado despercebidas ao desatento olhar do apressado viajor.


Paz a todos...

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